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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

Abriu o jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado ao Presidente a sair do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um governo forte, até à tirania... Medidas agrárias... Sully e Henrique IV...

Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse à irmã, tomou o chapéu, e dirigiu-se à estação.

Chegou ao telégrafo e escreveu:

“Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já. - Quaresma.”

V

O Trovador

- Decerto, Albernaz, não é possível continuar assim... Então, mete-se um sujeito num navio, assesta os canhões pra terra e diz: sai daí “seu” presidente; e o homem vai saindo?... Não! É preciso um exemplo...

- Eu penso também da mesma maneira, Caldas. A República precisa ficar forte, consolidada... Esta terra necessita de governo que se faça respeitar... É incrível! Um país como este, tão rico, talvez o mais rico do mundo, é, no entanto, pobre, deve a todo o mundo... Por quê? Por causa dos governos que temos tido que não têm prestígio, força... É por isso.

Vinham andando, à sombra das grandes e majestosas árvores do parque abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto intervalo, continuou:

- Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por aí, que o não chamasse de “banana” e outras cousas... Saía no carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso.

- E era um bom homem, observou o almirante. Amava o seu país... Deodoro nunca soube o que fez. Continuavam a andar. O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos os lados, acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:

- Morreu arrependido... Nem com a farda quis ir para a cova!... Aqui para nós que ninguém nos ouve: foi um ingrato; o imperador tinha feito tanto por toda a família, não acha?

- Não há dúvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: estávamos melhor naquele tempo, digam lá o que disserem...

- Quem diz o contrário? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? um Rio Branco? - E mais justiça mesmo, disse com firmeza o almirante. O que eu sofri, não foi por causa do “velho”, foi a canalha... Demais, tudo barato...

- Eu não sei, disse Albernaz com particular acento, como há ainda quem se case... Anda tudo pela hora da morte!

Eles olharam um instante as velhas árvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre árvores tão soberbas, tão belas, tão tranqüilas e seguras de si, como aquelas que espalhavam sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em terra própria, delas, da qual nunca sairiam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. O solo sobre o qual cresciam era delas e agradeciam à terra estendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem, para dar à boa mãe frescura e proteção contra a inclemência do sol. As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas quase beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléia, e cobriam a terra com uma ogiva verde...

O velho edifício imperial se erguia sobre a pequena colina. Eles lhe viam o fundo, aquela parte de construção mais antiga, joanina, com a torre do relógio um pouco afastada e separada do corpo do edifício.

Não era belo o palácio, não tinha mesmo nenhum traço de beleza, era até pobre e monótono. As janelas acanhadas daquela fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo ele, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco comum nas nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante, mas para anos, para séculos... As palmeiras cercavam-no, erectas, firmes, com os seus grandes penachos verdes, muito altos, alongados para o céu...

Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e função. Albernaz interrompeu o silêncio:

- Em que dará isto tudo, Caldas?

- Sei lá.

- O “homem” deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custódio... hum!

- O poder é o poder, Albernaz.

Vinham andando em demanda à estação de São Cristóvão. Atravessaram o velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancela até à linha da estrada de ferro. Era de manhã, e o dia estava límpido e fresco.

(continua...)

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