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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Acabada a festa, mandou vir a presença o artista do estampido. Apresenta-se o músico e não sei como se entenderam que, em vez de castigo, retirou-se Rômulo do gabinete com os forais vantajosos de genro ad honorem.

O escandaloso favor suscitou uma reação de inveja.

Rômulo era antipatizado. Para que o não manifestassem excessivamente, fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulência das infiltrações de gordura solta, desmoronava-se em socos. Dos mais fortes vingava-se, resmungando intrepidamente.

Para desesperá-lo, aproveitavam-se os menores do escuro. Rômulo, no meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte, mostrando o punho. Em geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a vindita. Vindita inexorável.

No decorrer enfadonho das últimas semanas, foi Rômulo escolhido, principalmente, para expiatório do desfastio. Mestre cook! via-se apregoado por vozes fantásticas, saídas da terra; mestre cook! por vozes do espaço, rouquenhas ou esganiçadas. Sentava-se acabrunhado, vendo se lembrava de haver tratado panelas algum dia na vida; a unanimidade impressionava. Mais freqüentemente, entregava-se a acessos de raiva. Arremetia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para trás, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho, deixando rolar adiante aquela ambulância danada de elefantíase.

A uma das vaias estive presente. Rômulo marcou-me. Pouco depois encontrávamo-nos no longo corredor que levava à biblioteca do Grêmio. Situação embaraçosa. Eu vinha, ele ia. Parar? Recuar? Enquanto hesitava, fui-me adiantando. Rômulo, de salto, empolgou-me a gola da blusa. Sacudia a ponto de macerar-me o peito. “Então, seu cachorro (sic), diga me aqui, se é capaz, quem é mestre.”

A injúria equilibrou-me do espanto. Estava tudo perdido. Deitei bravura. “Mestre, mestríssimo cook!” gritei-lhe à barba. Não sei bem do que houve. Quando dei por mim, estava estendido embaixo de uma escada. Entraram-me na cabeça três pregos, que havia nos últimos degraus. Ponderando que tinha no futuro tempo de sobra para vingança, levantei-me e sacudi da roupa a poeira humilhante da derrota.

Afinal, o dia chegou dos exames primários.

Provas de formalidade para as transições do curso elementar: primeira aula, para a segunda, segunda para a terceira, terceira para o ensino secundário.

Levavam-se assentos e mesas para o salão do oratório, o altar de um reposteiro, e repotreava-se a comissão solene, da qual faziam parte personagens da instrução Pública, com o diretor e os professores.

Aristarco representava, na mesa, o voto pensado do guarda-livros. Contas justas: aprovação com louvor, cambiando às vezes para distinção simples; atraso de trimestre, aprovação plena com risco de simplificação; atraso de semestre, reprovado.

Havia no Ateneu, fora desta regra, alunos gratuitos, dóceis criaturas, escolhidas a dedo para o papel de complemento objetivo de caridade, tímidos como se os abatesse o peso do beneficio; com todos os deveres, nenhum direito, nem mesmo o de não prestar para nada. Em retorno, os professores tinham obrigação de os fazer brilhar, porque caridade que não brilha é caridade em pura perda.

Nas provas do terceiro ano, as distinções foram tão numerosas, que me veio ter às mãos uma, sem escândalo aliás, que desde muito perdera o medo e começava a quadrar-me a aisance das demonstrações, como um mal contaminado do diretor. Fiz um figurão, apanhei a deliciosa nota, que levei a mostrar em casa, como um bichinho raro, mimando-lhe o pêlo fino, beijocando-lhe a focinheira. Sanches teve louvor; Maurílio, louvor; Cruz, louvor também, graças à especialidade da cartilha, em que era provecto, espantando a comissão julgadora com a ladainha toda de Nossa Senhora e ameaçando-nos com o calendário de cor. Santo por Santo, observações adjacentes, mais a designação das festas móveis e das luas, como o próprio Doutor Ayer das pílulas catárticas o não faria, Gualtério, palhaço, foi reprovado. Nascimento, o bicanca, fungou de satisfação: plenamente. Negrão, Almeidinha, Álvares, distinção. Contra a distinção deste último, o Professor Mânlio protestou surdamente; o bronco do Álvares com distinção! Batista Carlos, o bugre das setas, bomba! Diante da comissão mostrou-se muito surpreendido das perguntas, como se tivesse alguma coisa com aquilo; Barbalho, bomba. Barbalho pai andava atrasado semestre e meio e Barbalho filho não deixou de salvar as aparências com uma escrupulosa colaboração de asneiras. O ótimo, o venerável Rebelo não compareceu: deixara o colégio, havia meses, por causa dos olhos.

(continua...)

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