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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— O que eu quero dizer é que não te precipites, Evaristo. Façamos as coisas com jeito, sem desgostar a ninguém. Olha que devemos favores ao Sr. Furtado, à D. Branca...

— Adeus, minhas encomendas! — disse o bacharel erguendo-se e atirando o jornal para o lado. — Quem te afirmou o contrário? É verdade que devo muitos favores àquele bigorrilha, inclusive os duzentos mil réis que me emprestou já lá vai um ano; mas porque nos não cobrou? Negócio é negócio. Agora, daí não segue-se que lhe devo beijar as mãos como um cachorrinho de grisette.

— Evaristo!

— Digo e torno a dizer: não sou um cachorrinho de grisette para andar beijando as mãos a fidalgos!

— Fala baixo!

— Estou falando mais baixo do que costumo...

E encerrou-se a discussão entre Evaristo de Holanda e a mulher naquela tarde melancólica demais, ao crepúsculo.

Adelaide não dormiu, pensando na brusca resolução do marido e em mil e tantas coisas fúteis que aos olhos de uma mulher inexperiente como ela, e como ela supersticiosa, adquirem estranhas proporções. Mas no meio de todas essas coisas erguia-se o vulto de um homem, que não era o Holanda, que absolutamente não se parecia com aquele que ali estava a seu lado, na cama, e de novo um extraordinário medo apoderava-se dela, um pavor inexplicável, uma covardia criminosa, que a obrigava a abrir e fechar os olhos intermitentemente... Era o vulto do secretário... "a tentação", chamando-a para o mistério do gozo e para a desonra, num apelo fidalgo de cavalheiro do Amor, num requinte donjuanesco de volúpia mundana... Sim, era ele, era. Luís Furtado acenando-lhe com a felicidade efêmera de um instante, ajoelhando-se-lhe aos pés e suplicando um beijo, uma palavra de amor, um movimento de simpatia... E ela, inconscientemente, fechava os olhos para o ver melhor, e naquele sonhar acordada, ia-se-lhe a alma, num vôo rápido e traiçoeiro para o marido de D. Branca... Depois voltava ao corpo donde saíra, e logo a jovem esposa do bacharel abria os olhos, trêmula de medo, arrependida como se houvesse praticado uma ação má.

Naquela noite, mais do que em todas as outras, Adelaide pensou no secretário. — Amá-lo-ia?... Não, porque adorava o marido. Talvez acabasse amando-o... Mas o futuro é tão incerto, são tão incertas as previsões humanas!... Certo é que a imagem dele não a deixava, por mais que a repelisse.

Amanheceu o dia soberbo de luz. Evaristo tornou a falar na viagem para o norte. Adelaide disse-lhe que sim, que ia tratando de arrumar as coisas, e fez um gesto de enfado.

O bacharel vestiu-se, cantarolando de bom humor, e desceu para a refeição.

— Bom dia.

— Bom dia.

Repetiram-se os habituais cumprimentos da manhã.

Mais do que nunca o almoço correu frio. D. Branca estava de olhos duros e passava os pratos com um gesto de visível apatia. Furtado aludiu, em frases lacônicas, ao último telegrama de Cannes:

— Sua Majestade continuava no uso das duchas, — publicado nos jornais matutinos. Leu alto, para que todos ouvissem, inclusive o bacharel, que fingiu não dar atenção.

Adelaide petiscava de leve as migalhas de arroz e os bocadinhos de fritada, baixando os olhos com cerimoniosa discrição.

Evaristo, por sua vez, guardou o mais profundo recolhimento, não aludindo sequer à projetada viagem. Ia falar ao amigo no Banco e lá mesmo ajustar suas contas.

— Vamos? — disse o secretário tomando o chapéu e palitando os dentes. — Vamos — respondeu friamente Evaristo.

E saíram como de costume, agora menos comunicativos.

Adelaide acompanhou o marido à escada e, logo que este desapareceu embaixo, porta fora, recolheu ao segundo andar, numa crise de nervos. Não havia decorrido uma hora depois do almoço, quando D. Branca ouviu gritos finos de mulher no alto do sobrado.

— É Adelaide, minha gente! — disse arregalando os olhos para o Antônio que correra.

Os gritos aumentavam, numa progressão assustadora.

— É ela! é ela! — repetiu a esposa de Furtado investindo para o corredor.

A ama, com a Julinha nos braços, abalou também dos fundos da casa, e ela e D. Branca e o Antônio acudiram precipitadamente, aos encontrões.

O fâmulo do secretário não esperou pela patroa: galgou os degraus dois a dois, três a três, numa elasticidade felina de músculos, e, sem guardar conveniências, enveredou pelos aposentos do bacharel. D. Branca foi encontrá-lo sobrepujando Adelaide que se debatia no leito numa agitação de todo o corpo, os olhos desvairados, a face muito pálida, em convulsões histéricas.

— Mas o que foi? o que foi?! — perguntava, assombrada, a esposa do secretário.

Ninguém sabia explicar, ninguém sabia dizer o que aquilo era.

— O doutor, minha senhora, o doutor! — aconselhava o Antônio, agarrado aos pulsos da doente.

(continua...)

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