Por Aluísio Azevedo (1881)
Apresentaram-se também, fora da rodinha do costume, dois novos convidados; Um levado por Manuel e o outro pelo Casusa. O primeiro era o Joaquim Furtado da Serra, bom homem, do comércio, muito amigo da família e tapado como um ovo, o que, alias, não impedia que estivesse rico. Só entendia e só conversava sobre negócios, gostava de fazer bem e era membro de várias sociedades filantrópicas. Vivia contente da vida, cheio de amigos e obsequiados, estava sempre a rir e a falar das suas três filhas. “Não puderam ir à festa de Manuel, coitadinhas! porque ficaram à cabeceira de Uma doente...” Não queria comendas nem grandezas; contava a todos como principiara no Brasil descalço, com um barril as costas, e orgulhava-se, entre gargalhadas, da sua atual independência. O outro era um rapazola de vinte e dois anos, que à primeira vista, parecia ter apenas dezesseis: magro, puxado, muito penteado e muito míope, com as unhas burmidas, o colarinho enorme e os pés apertadinhos em sapatos de polimento. Estudava no Liceu da província, usava uma cadeia de plaquê brilhantes falsos no peito da camisa e uma bengalinha equilibrada entre o indicador e o índex da mão direita; tinha uma coleção de acrósticos e recitativos da própria lavra, uns inéditos e outros já publicados a dinheiro nos jornais aos quais qualificava desvanecidamente de “seu tesouro!” Chamava-se Boaventura Rosa dos Santos; era conhecido por “Dr. Faisca” e gostava de fazer e adivinhar charadas.
Entraram todos em casa, numa desordem, acossados pela música, que atropelava Uma polca do Colas, e por Uma intempestiva carretilha que soltara Sebastião. Houve sarilho. José Roberto, debaixo de tempestuosa descompostura, obrigava D. Amância a dar meia dúzia de voltas pela varanda, indo cair ambos, perseguidos pelo Joli, sobre um banco de paparaúba. Joli era o cãozinho da Eufrásia.
No furor da terrível dança, desprendera-se o coque de Amância e fora parar no jardim. Joli saltara-lhe logo atrás e destripava-o freneticamente com os dentes.
— Olhe, seu Casusa! Gritou a velha, quase sem fôlego, você não de perca o respeito, seu pica-fumo! Quando tomar suas monas, meta-se em casa com os diabos! Credo! Que cachaceiro acabado! Vá tomar liberdade com quem lhas dá! Diabo do sem brios!
O coque foi arrancado das garras do Joli e restituído à dona.
— Vejam! Vejam em que bonito gosto me puseram o meu coque de pita! Parece uma rodilha de limpar panelas! Diabo da brincadeira estúpida! Também, em vez de criar xerimbabos, seria melhor que cada um cuidasse de sua vida, que teria muito do que cuidar!
E voltando-se para Sebastião:
— Mas o culpado é você, seu Sebastião; com você e que me tenho de haver!
— Não posso perder o meu coque novo!
— Novo quê! . contestou Casusa Eu vi pular de dentro dele uma aranha!
— É novo, e quero outro p'r'aqui!
— Está bom, meus senhores, deixem-se disso, interveio Manuel, e vamos ao café, que está esfriando!
— Mas o meu coque? Isto não pode ficar assim! — A senhora terá outro. descanse!
Mal se serviram de café com leite e bolo de tapioca com manteiga, formou-se uma quadrilha. na qual o Casusa, de par com Eufrasinha, fez o que ele chamava “pintar o padre''' Ditado este que sobremaneira escandalizava o especialista das ladainhas. de cujos olhos partiam, por cima dos óculos, chispas repreensivas sobre aquele.
Este Frei Lamparinas era um homenzinho escorrido, feio, natural de Caxias. Não conseguira nunca ordenar-se em razão da sua extremada estupidez: soletrava ainda as ladainhas que havia vinte anos recitava; jamais entrara com o latim. Os rapazes do Liceu mexiam com ele e atiravam limões verdes por detrás do muro do convento do Carmo, quando o infeliz passava defronte Tinha uma biografia engraçada, cheia de disparates mas todos diziam que era bom de coração e não fazia mal a ninguém.
— O chorado! Venha o chorado! gritavam do fundo da varanda batendo palmas.
E a música, sem se fazer rogada gemeu a lânguida e sensual dança brasileira.
De pronto, Casusa e Sebastião pularam ao meio da sala e puseram-se a sapatear agilmente. com barulho. estalando os dedos e requebrando todo o corpo Em breve arrastaram o Serra, o Faisca e o Freitas: e as mocas. chamadas por aqueles, entraram na irresistível brincadeira. Elas rodavam na pontinha dos pés, o passo miudinho e ligeiro, os braços dobrados e a cabeça inclinada, ora para um lado, ora para outro, estalando a língua contra o céu da boca, numa volúpia original e graciosa.
Os velhos babavam-se.
— Quebra! berrava o Casusa entusiasmado. Quebra meu bem!
E regamboleava furiosamente a perna.
O chorado atingira afinal a sua fase de loucura. Os que não podiam dançar expectavam, acompanhando a música com movimentos de corpo inteiro e palmas cadenciado e espontâneas.
— Bravo! Assim, seu Casusa! — Picadinho! Picadinho!
De repente, ouviu-se um trambolhão e um grito: era o Faísca. que cedera a um “cambite” do Casusa, indo cair aos pés de Maria do Carmo Todos riram.
— Credo! gritou a velha Pois este homem não me queda agarrar a perna?...
Cruz capeta!
— Não aumente, minha senhora, foi no tornozelo...Este ossinho do pé!
— Mas eu tenho muita cócegas, e, depois do defunto Espigão, ninguém mais me tocou no corpo!
Daí a pouco, chamavam para o almoço, e o divertimento continuou sem interrupção.
No dia de São João nunca se abria o armazém de Manuel, e naquele ano a véspera caíra num domingo! “Eram dois dias cheios!” como dizia satisfeito o Vila Rica.
Desde a véspera que o Benedito, e mais uma preta, haviam seguido para o sítio, carregados de fogos e dos paramentos necessários para se armar o altar: na madrugada do dia foi a Brígida, em companhia de Mônica Lá estava D. Amância para tomar conta de tudo. Os empregados iriam também todos; não havia, por conseguinte, necessitado de ficar escravo nenhum em casa.
O quarto dos caixeiros tinha então um aspecto domingueiro: botas engraxadas sobre os baús; roupas de casimira cuidadosamente estendidas nas costas de cadeiras; camisas engomadas por aqui e por ali, a espera da serventia, e um cheiro ativo de extratos para o lenço. Os rapazes vestiam-se. Seriam, quando muito, oito horas da manhã.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.