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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Replicou-lhe Belchior com quatro pedras na mão; o filho de Jorge treplicou, já com mostras de quem queria usar o chicote que trazia. Quando o gesto indicou a intenção, quase todos os que estavam na botica, tomaram o partido de Belchior, mas não tardou que varias pessoas das vizinhanças e da rua vieram em socorro do outro contendor.

Estavam justamente as coisas neste ponto, quando apareceu o chefe dos bandoleiros. Ao gibão surrado, aos calções em diferentes partes serzidos e aos sapatões grosseiros com que costumava andar, tinham-se substituído casaca e calções de veludo e sapatos de entrada baixa com fivelas. Trazia pendente um espadim que parecia novo, como o chapéu de pluma e a roupa. Naqueles tempos já o habito fazia o monge. Tanto que o Tunda-Cumbe se apresentou vestido com este apuro e galhardia, não foi preciso mais para que todos logo conjeturassem que grande transformação se operara na vida do ex-peixeiro, e já alguns lhe tirassem o chapéu, como demonstração de respeitosa cortesia. Tal houve que se afastou para que ele tivesse livre acesso ao ponto central do conflito. Muitos dos circunstantes explicaram esta atenção, atribuindo-a a vir ele acompanhado de dez a doze valentões conhecidos, pouco tempo antes seus companheiros, agora seus guarda-costas.

- Donde vem esta grandeza e este poderio a Tunda-Cumbe, que ainda não há um mês vendia bodiões e amorés pelas portas? perguntou a meia voz um parcial dos nobres.

Respondeu-lhe no mesmo diapasão o companheiro:

- Dizem que tem ordem franca dos mascates para ajuntar gente, e do Recife lhe prometem a patente de coronel em paga dos serviços, já vendidos a eles por bom dinheiro.

Entretanto o Tunda-Cumbe chegara ao ponto onde se dera o veemente bate-barbas. Achou somente aí o Belchior. O filho do Jorge Cavalcanti tinha tomado já a direção da matriz, e com pouco descavalgava e entrava.

Entendendo Tunda-Cumbe que não devia perder aquela ocasião de dar a mostra do pano, puxou do espadim e assentou-o de chapa sobre as costas de um sujeito que no canto da rua mais publica da vila exaltava a causa da nobreza e desfazia na reação dos mercadores. Não foi preciso mais para que se desse novo conflito, que dentro de alguns minutos redundou em serio motim. Houve muitas contusões, muitos ferimentos, muito sangue inutilmente derramado. Estando ainda nas mãos da nobreza a autoridade e a força publica, pode-se dominar no fim de algum tempo a assuada. O nome, porém, de Tunda-Cumbe e os dos bandoleiros mais violentos que com ele percorreram as ruas, espancando e ferindo os adversários que encontraram desprevenidos e inermes, esses nomes, especialmente o de Manoel Gonçalves, começaram desde esse momento a voar nas asas da fama, e poucos dias depois designaram celebridades que todos entraram a respeitar e temer.

Uma semana depois, Goiana foi testemunha de novas cenas, mais graves do que as primeiras, as quais chegaram a durar três dias.

Por ordem de João da Maia da Gama, capitão-mór da Paraíba, tão dedicado aos mascates que pelo senado da câmara de Olinda foi apelidado em oficio de 26 de junho de 1711 - a pedra fundamental em que os do Recife se levantaram e formaram o quimérico edifício e fabrica do industrioso levantamento - , veio Luiz Soares reunir-se com o Tunda-Cumbe a fim de irem ao Recife com sua gente passante de oitocentos homens, levantar o cerco.

Achavam-se entre os da Paraíba, não só Joaquim de Almeida, espirito por assim escrevermos, inspirador do capitão-mór João da Maia, mas também Pedro de Melo, um dos instrumentos da revolta sustentados pelo Almeida. Tendo esta por base, para tornar uniforme o movimento, dar Goiana como unida à Paraíba, veio desta Pedro de Melo eleito capitão-mór daquela. Feita a junção em Pedras-de-fogo, tomam posse com ele em Goiana os oficiais da nova câmara, distribuem-se lugares aos mais esforçados cabos da rebelião, constitui-se enfim o governo da vila independente do de Pernambuco. Pedro de Melo entra no exercício do seu lugar com toda a solenidade do estilo. Sai da igreja do Carmo para a casa da câmara debaixo do palio, acompanhado dos camaristas, tão legítimos como ele, e dos frades carmelitas, executores das ordens dos da recoleta do Recife. A vila, achando-se desguarnecida de força militar, visto que a que havia tinha ido atacar o rancho do Sipó, no pressuposto de surpreender aí o Tunda-Cumbe, viu-se obrigada a aceitar este desatino quase a portas fechadas. E o intruso e ilegítimo governo se consolidaria talvez, sustentado por Maia, se logo depois da sua posse, em 14 de julho, não tivesse chegado a guarnição incumbida da diligencia e ao mesmo tempo as forças legais mandadas de Olinda para impedir que seguissem os revoltosos e dissolver o governo intruso. Estas forças vinham comandadas pelo ajudante Bernardo de Alemão e Mendonça, o qual se unira com o capitão Bento Bezerra de Menezes, que comandava a companhia de Araripe, e com o ajudante Felipe Bandeira de Melo e os que com ele estavam na ilha de Itamaracá. Posto que não eram numerosos, tendo feito junção com a guarnição da vila, puderam por em violento e vergonhoso regresso todos os revoltosos Paraibanos.

(continua...)

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