Por Bernardo Guimarães (1875)
— Ocorre-me um expediente, — disse ele ao ouvido de Geraldo, — vou tentá-lo.
E sem esperar resposta aproximou-se de Martinho.
— Senhor Martinho, — disse-lhe ele, — desejo dizer-lhe duas palavras em particular, com permissão aqui do doutor.
— Estou às suas ordens, - replicou Martinho.
— Estou persuadido, senhor Martinho, — disse-lhe Álvaro em voz baixa, tomando-o de parte, — que a gratificação de cinco contos é o motivo principal que o leva a proceder desta maneira contra uma infeliz mulher, que nunca o ofendeu. Está em seu direito, eu reconheço, e a soma não é para desprezar. Mas se quiser desistir completamente desse negócio, e deixar em paz essa escrava, dou-lhe o dobro dessa quantia.
— O dobro!... dez contos de réis! exclamou Martinho arregalando os olhos.
— Justamente; dez contos de réis de hoje mesmo.
— Mas, senhor Álvaro, já empenhei minha palavra para com o senhor da escrava, dei passos para esse fim, e...
— Que importa!... diga que ela evadiu-se de novo, ou dê outra qualquer desculpa...
— Como, se é tão público que ela se acha em poder de V. S.ª ?...
— Ora!... isso é sua vontade, senhor Martinho; pois um homem vivo e atilado como o senhor embaraça-se com tão pouca coisa!...
— Vá, feito — disse Martinho depois de refletir um instante. – Já que V.Sª.
tanto se interessa por essa escrava, não quero mais afligi-lo com semelhante negócio, que a dizer-lhe a verdade bem me repugna. Aceito a proposta.
— Obrigado; é um importante serviço que vai me prestar.
— Mas que volta darei eu ao negócio para sair-me bem dele?
— Veja lá; sua imaginação é fácil em recursos, e há de inspirar-lhe algum meio de safar-se de dificuldades com a maior limpeza.
Martinho ficou por alguns momentos a roer as unhas, pensativo e com os olhos pregados no chão. Por fim levantando a cabeça e levando à testa o dedo índice:
— Atinei! exclamou. — Dizer que a escrava desapareceu de novo, não é conveniente, e iria comprometer a V. Sa. que se responsabilizou por ela. Direi somente que, bem averiguado o caso, reconheci que a moça, que V.Sa. tem em seu poder, não é a escrava em questão, e está tudo acabado.
— Essa não é mal achada... mas foi um negócio tão público...
— Que importa!... não se lembra V.Sa. de um sinal em forma de queimadura em cima do seio esquerdo, que vem consignado no anúncio? direi, que não se achou semelhante sinal, que é muito característico, e está destruída a identidade de pessoa. Acrescentarei mais que a moça, por quem V. Sa. se interessa, vista de noite é uma coisa, e de dia é outra; que em nada se parece com a linda escrava que se acha descrita no anúncio, e que em vez de ter vinte anos mostra ter seus trinta e muitos para quarenta, e que toda aquela mocidade e formosura era efeito dos arrebiques, e da luz vacilante dos lustres e candelabros.
— O senhor é bem engenhoso. — observou Álvaro sorrindo-se; — mas os que a viram nenhum crédito darão a tudo isso. Resta, porém, ainda uma dificuldade, senhor Martinho; é a confissão que ela fez em público!... isto há de ser custoso de embaraçar-se.
— Qual custoso!... alega-se que ela é sujeita a acessos de histerismo, e é sujeita a alucinações.
— Bravo, senhor Martinho; confio absolutamente em sua perícia e habilidade. E depois?
— E depois comunico tudo isso ao chefe de policia, declaro-lhe que nada mais tenho com esse negócio, passo a procuração a qualquer meirinho, ou capitãodo-mato, que se queira encarregar dessa diligência, e em ato contínuo escrevo ao senhor da escrava comunicando-lhe o meu engano, com o que ele por certo desistirá de procurá-la mais por aqui, e levará a outras partes as suas pesquisas.
Que tal acha o meu plano?...
— Admirável, e cumpre não perdermos tempo, senhor Martinho.
— Vou já neste andar, e em menos de duas horas estou aqui de volta, a dar parte do desempenho de minha comissão.
— Aqui não, que não poderei demorar-me muito. Espero-o em minha casa, e lá receberá a soma convencionada.
— Podem-se retirar, — disse Martinho ao oficial de justiça e aos guardas, que se achavam postados do lado de fora da porta. – Sua presença não é mais necessária aqui. Não há dúvida! — continuou ele consigo mesmo: — isto vai a dobrar como no lansquenê. Esta escrava é uma mina, que me parece não estar ainda esgotada.
E retirou-se, esfregando as mãos de contentamento.
— Então, que arranjo fizeste com o homem, meu Álvaro? — perguntou Geraldo, apenas Martinho voltou as costas.
— Excelente, — respondeu Álvaro; — a minha lembrança surtiu o desejado efeito, e ainda mais do que eu esperava.
Álvaro em poucas palavras deu conta ao seu amigo do mercado que fizera com o Martinho.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.