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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Quereis que vos fale do passado, do presente, ou do futuro?

— De todas essas épocas... ao menos para ouvir por mais tempo os vaticínios e palavras de tão amável Sibila.

— Pois então principiemos pelo passado. Oh! Que belas revelações me faz a fada! Sim, eu estou lendo no livro da vossa vida estou vendo tudo, estou dentro do vosso espírito e de vosso coração!

— Oh! Sim, eu juro que isso é verdade, atalhou o estudante. A menina fingiu não entender a alusão e continuou:

— Senhor, vós amastes muito cedo… creio… sim, foi na idade de treze anos.

Augusto recuou um passo; ela prosseguiu:

— Amastes, sim, a uma menina de sete anos, com quem brincastes à borda do mar.

— E quem era ela? Como se chamava? perguntou Augusto com fogo, talvez pensando que d. Carolina estava com efeito adivinhando e podia dizer-lhe o que ele mesmo ignorava.

Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha; a fada só me diz o que se passou em vosso coração, e vós, por certo, que também não sabeis quem era essa menina e só a conheceis pelo nome de — minha mulher.

— Prossiga, minha senhora!

Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo, esmeralda, camafeu, mas basta de vossa mulher; permiti que vos diga que mostrava ser uma criança doidinha, que cedo começava a fazer loucuras.

— Que cruel juízo!

— Oh! Não vos agasteis; eu a respeito também, em atenção a vós, porém vamos acabar com o vosso passado. Houve um tempo em que quisestes figurar entre os amigos como galanteador de damas, e por justo e bem merecido castigo fostes desgraçado: todas elas zombaram de vós!

E a menina interrompeu-se, para rir-se da cara que fazia Augusto.

— Ora, por esta não esperava eu, disse o estudante.

A primeira jovem que requestastes foi uma moreninha de dezesseis anos, que jurou-vos gratidão e ternura, e casou-se oito dias depois com um velho de sessenta anos! Não foi assim?

E a menina de novo desatou a rir.

— Minha senhora, de que se ri tanto?

Ora! E que a fada está me dizendo que ainda em cima os vossos amigos, quando souberam de tal, deram-vos uma roda de cacholetas!

— Então a sra. d. Ana lhe contou tudo isso?

— Juro-vos, senhor, que minha avó não me fala em semelhantes objetos.

Consenti que eu continue. A segunda foi uma jovem coradinha, a quem em uma noite ouvistes dizer num baile que éreis um pobre menino com quem ela se divertia nas horas vagas, não foi assim?

— Prossiga, minha senhora.

— A terceira foi uma moça pálida, que zombou solenemente, tanto de um primo que tinha, como de vós. Eis alguns de vossos principais galanteios. Exasperado com o infeliz resultado deles e vivamente tocado das letras e da música de certo lundu que se vos cantou, tomastes outro partido e desde então vós pretendeis fazer-vos passar por borboleta de amor.

— Borboleta?!... Sim... Sim… lembro-me agora que a senhora passeava pelo jardim. Já sei de quem foram certas carreirinhas e portanto compreendo que sabeis de tudo à custa...

— A custa da fada, senhor, e escuso estender-me mais, porque vós estais bem certo de que eu devo saber ainda muito.

Sim, mas diga sempre.

— Não, antes quero falar-vos do vosso presente.

— Pelo amor de seus belos olhos, minha senhora, vamos antes ao que eu não sei, vamos ao meu futuro.

— Sois sobejamente sôfrego! Não vedes como isso vai contra a boa ordem da narração?

— Mas a desordem é hoje moda! O belo está no desconcerto; o sublime no que se não entende; o feio é só o que podemos compreender: isto é, romântico; queira ser romântica, vamos ao meu futuro.

— Pois bem, vamos ao vosso futuro. Principiarei, como pretendia fazer, se falasse do presente de vossa vida, dizendo-vos que vós não sois tão inconstante como afetais.

— Misericórdia!

— Mas que estais a ponto de o ser; digo-vos que perdereis uma certa aposta que fizestes com três estudantes.

— Como é isso? Então a senhora sabe...

— A fada que me revelou isso leu o termo na carteira de quem o guardou.

— A fada? Sim, a feiticeira o leu... Compreendo.

— Vós não sois inconstante, porque tendes até hoje cultivado com religioso empenho o amor de vossa mulher; mas vós o ides ser, porque não longe está o dia em que a esquecereis por outra.



(continua...)

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