Por Eça de Queirós (1925)
Insisto nestes detalhes, para destruir a errada opinião (que tende a introduzir-se na.História Contemporânea) de que o Salão Abranhos era uma caverna política. Não nego decerto que por vezes se não falasse dos negócios públicos, e que, quando o Ex.mo Conde era ministro, as personalidades eminentes da maioria não viessem tomar sem cerimónia a sua chávena de chá. Posso, porém, afirmar, que nunca nestas pacatas soirées se decidiram ou se combinaram os grandes movimentos da política, como sucede nos salões estrangeiros, onde, segundo me tem contado meu bom tio Julião, se tramam, por trás dos leques, golpes de Estado e se decidem os destinos da Pátria entre duas vazas de whist!
Os íntimos dos Abranhos, eram, na sua quase totalidade, os antigos familiares do Desembargador Amado.
Era o coronel Serrão – sempre o primeiro a chegar, bufando alto, de aspecto feroz e coração bondoso, sempre com sua filha Catarina, magra e estonteada, de grande cuja, os dentes maus do abuso dos doces, as omoplatas salientes sob o corpete do vestido atabalhoado. Nunca simpatizei com esta família.
Era a excelente D. Joana Carneiro, cujo cirro no estômago alastrava, inspirando geral compaixão, sempre triste, trazendo todas as noites a narração dos sintomas crescentes da sua doença. Acompanhava-a, amiúde, um sobrinho, marialva de calça justa e jaquetão cingido, grande frequentador do Café Central, com voz rouca da noitada da véspera, e sempre acanhado de se encontrar naquela sala, entre senhoras, num lugar onde nem havia fadistas, nem pilecas, nem meios litros. Sua tia, inquieta do futuro, procurava afincadamente colocá-lo numa repartição do Estado.
Era ainda a enorme D. Amália Saraiva, a que também já me referi neste trabalho: os seios fenomenais desta senhora, que se iam desenvolvendo progressivamente com os anos, pareciam dois mundos. Quando desapertasse o vestido fortemente espartilhado que os continha, o trasbordar daquelas duas prodigiosas massas de tecido celular devia ser um espectáculo pavoroso e grandioso! Viúva de um homem que prestara vagos serviços ao Estado, reclamava agora com pertinácia uma justa pensão. Vinha geralmente com sua delicada filha, a tocante Julinha, adorável pela fidelidade e graça juvenil com que recitava A Lua de Londres e outras maravilhas da literatura pátria.
Não devo esquecer o Conselheiro Andrade, agora frequentador assíduo do Salão Abranhos, pequeno, aprumado, escarolado, com o seu perfil de jurista, as suicinhas brancas, o ar próspero. Proprietário abastado do Ribatejo, continuava a dar toda a sua atenção à agricultura, e, como agora escrevia artigos profundos no Arquivo Rural, este lado literário da sua personalidade estabeleceu entre nós uma simpatia, que, vindo de um homem tão opulento, é ainda uma das honras da minha carreira.
Infalível, também, era o Doutor, aquele cavalheiro estimável, mas de aspecto lúgubre, que todos apenas conheciam por este nome: o Doutor. Sempre vestido de preto, sempre de luvas, amarelo como uma cidra, persistia na sua mudez taciturna; porém, continuava a escutar com uma atenção intensa, a testa franzida, piscando vivamente os olhos, como num profundo trabalho cerebral. Respeitador fervente das instituições, das personalidades oficiais, ninguém sabia ainda onde ele vivia, nem de que vivia: mas precipitava-se com tanta veneração (porque era homem de sociedade) a tomar as xícaras vazias das mãos das senhoras, dizia com tanta convicção, na sua voz cavernosa, «tem V. Exª carradas de razão»; que era geralmente considerado como um excelente moço.
Mas a maior animação daquelas soirées era dada, como outrora em casa do Desembargador, pelos nossos conhecidos Fradinhos. O Dr. Fradinho, que teve depois uma tão gloriosa carreira, não passava então de um modesto advogado. Possuía, porém, uma certa fortuna, e com as suas lunetas de ouro e o farto bigode, era na verdade um belo homem. Nada encantava nele todavia como a vivacidade da conversa; não, em boa.68 verdade, que eu jamais lhe ouvisse expor uma ideia original ou um dito faiscante: mas era fecundo e verboso. Ninguém conhecia melhor a nossa legislação, e sobretudo a da Bélgica, o seu país favorito. Era além disso activo, ambicioso, dúctil, e a sua admiração, a sua dedicação por Alípio Abranhos, davam o traço dominante do seu carácter.
De D. Luísa Fradinho, que direi? Como em casa do Desembargador, quando ela entrava na sala dos Abranhos, com o seu belo corpo de Juno, o penteado alto, o brilho dos olhos felizes, a sala iluminava-se daquela luz particular que irradia da beleza feminina. E certo que a sua amabilidade, o seu espírito, deram lugar a que a sua reputação fosse manchada pela nódoa de uma calúnia anónima; eu não a creio, porém, culpada e se havia entre ela e o bacharel Tavares uma grande intimidade, provinha somente de que os seus espíritos, muito semelhantes, encontravam na conversação um encanto mútuo e todo intelectual.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.