Por Eça de Queirós (1888)
O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um Brummel, casaca de botões amarellos sobre collete de setim branco; e Carlos entrando uma manhã cedo no Universal, deu com elle pallido de colera, a despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal envernisados. Os seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso Salcede, amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe, d'olho esperto e duro, já com ares de emprestar a trinta por cento.
Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se ás vezes Rachel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a «deliciosa!» - e dizia-o rilhando o dente: ao marquez não deixava de parecer appetitosa, para uma vez, aquella carnezinha faisandée de
mulher de trinta annos: Cruges chamava-lhe uma «lambisgoia relamboria». Nos jornaes, na secção do Highlife, ella era «uma das nossas primeiras elegantes»: e toda a Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio d'ouro, e a sua caleche azul com cavallos
pretos. Era alta, muito pallida, sobre tudo ás luzes, delicada de saude, com um quebranto nos olhos pisados, uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lyrio meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente negros,
ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella deixava habilmente cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia phrases. O seu sorriso lasso, pallido, constante, dava-lhe um ar de insignificancia. O pobre Ega adorava-a.
Conhecera-a na Foz, na Assembléa; n'essa noite, cervejando com os rapazes, ainda lhe chamou camelia melada; dias depois já adulava o marido; e agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das classes medias, soluçava muita vez por causa d'ella, horas inteiras, cahido para cima da cama.
Em Lisboa, entre o Gremio o a Casa Havaneza, já se começava a fallar «do arranjinho do Ega». Elle todavia procurava pôr a sua felicidade ao abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas precauções tanta sinceridade como prazer romantico
do mysterio: e era nos sitios mais desageitados, fóra de portas, para os lados do Matadouro, que ia furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as cartas d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado com que espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso, que, diante de Carlos e dos outros, nunca até ahi mencionara o nome d'ella, nem deixara jámais escapar um lampejo de exaltação.
Uma noite, porém, acompanhando Carlos até ao Ramalhete, noite de lua calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto por uma onda interior de paixão, soltou desabafadamente um suspiro, alargou os braços, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz:
Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie!
Isto fugira-lhe dos labios como um começo de confissão; Carlos ao lado não disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto.
Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se immediatamente no puro interesse litterario:
- No fim de contas, menino, digam lá o que disserem, não ha senão o velho Hugo...
Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra Hugo, chamando-lhe «saco-roto de espiritualismo», «boca-aberta de sombra», «avôsinho lyrico», injurias peiores.
Mas n'essa noite o grande phraseador continuou:
- Ah o velho Hugo! o velho Hugo é o campeão heroico de verdades eternas... É necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o ideal póde ser real...
E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro.
Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da sua dyspepsia - quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega, de sobrecasaca azul, luva gris-perle e um rolo de papel na mão.
- Tens que fazer, doutor?
- Não, ía a sahir, janota!
- Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do Atomo... Senta-te ahi. Ouve lá.
Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o manuscripto, espalmou-o, deu um puxão ao collarinho - e Carlos, que se pousara á borda do divan, com a face espantada e as mãos nos joelhos, achouse quasi sem transição transportado dos rugidos do ventre do Viegas para um rumor de populaça, n'um bairro de judeus, na velha cidade de Heidelberg.
- Mas espera lá! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso não é o começo do livro! Isso não é o cahos...
Ega então recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem.
- Não, não é o primeiro episodio... Não é o cahos. É já no seculo XV... Mas n'um livro d'estes póde-se começar pelo fim... Conveiu-me fazer este episodio: chama-se a Hebrea.
A Cohen! pensou Carlos.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.