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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Basílio tinha descido um dos vidros; o estore corrido palpitava brandamente, pôs-se então a falar-lhe ternamente de si, do seu amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em Lisboa - dizia. - Não tencionava casar-se; "não compreendia nada melhor do que viver ao pé dela, sempre. Dizia-se desiludido, enfastiado. Que mais lhe podia oferecer a vida? Tinha tido as sensações dos amores efêmeros, as aventuras das longas viagens. Ajuntara alguma de seu - e sentia-se velho.

Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos:

- Não é verdade que estou velho?

- Não muito - e os seus olhos umedeciam-se.

Ah! Estava! Estava! O que lhe apetecia agora era viver para ela, vir descansar nas da sua intimidade. Ela era a sua única família. - Fazia-se muito parente. - A família no fim de tudo é o que há de melhor ainda. Não te incomoda que eu fume?

E acrescentou, raspando o fósforo:

- O que há de bom na vida é uma afeição profunda como a nossa. Não é verdade? Contento-me com pouco, de resto. Ver-te todos os dias, conversar muito, saber que me estimas... - Por dentro do campo, ó Pintéus! - gritou com força pela portinhola.

O cupê entrou a passo no Campo Grande. Basílio ergueu os estores; um ar mais vivo penetrou. O sol caía sobre o arvoredo, transpassando-o de uma luz faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto ressequido e exausto. Na terra gretada, a erva curta, crestada, fazia tons cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarelada. Saloios passavam, amodorrados sobre o albardão, bamboleando as pernas, abrigados sob os vastos guarda-sóis escarlates; e a luz que vinha de um céu azul-ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação crua as paredes muito caiadas, as águas de algum balde esquecido às portas, todas as brancuras de pedras.

E Basílio continuava:

- Vendo tudo o que tenho lá fora, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em Buenos Aires, talvez...Não te agrada? Dize...

Ela calava-se; aquelas palavras, as promessas, a que a voz dele metálica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como a inebriação dum licor forte. O seu seio arfava.

Basílio baixou a voz, disse:

- Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz; parece-me tudo tão bom!...

- Se isso fosse verdade! - suspirou ela, encostando-se para o fundo do cupé.

Basílio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pôr a sua fortuna em inscrições. Começou a dar-lhe provas: já falara a um procurador; citou-lhe o nome, um seco, de nariz agudo...

E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes:

- E se fosse verdade, dize, que fazias?

- Nem eu sei - murmurou ela.

Iam entrando no Lumiar, e por prudência desceram os estores. Ela afastou um, e, espreitando, via fora passar rapidamente, ao lado do trem, árvores empoeiradas; um muro de quinta de um cor-de-rosa sujo, fachadas de casas mesquinhas; um ônibus desatrelado; mulheres sentadas ao portal, à sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido de branco, de chapéu de palha, que estacou, arregalou os olhos para as cortinas fechadas do cupé. E ia desejando habitar ali numa quinta, longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das janelas, parreiras. sobre pilares de pedra, pés de roseiras, ruazinhas amáveis sob árvores entrelaçadas, um tanque debaixo de uma tília, onde de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao escurecer, ela e ele, um pouco quebrados das felicidades da sesta, iriam pelos campos, ouvindo sob o céu que se estrela, o coaxar triste das rãs.

Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do cupê, o calor, a presença dele, o contato da sua mão, do seu joelho, amoleciam-na. Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito.

- Em que vais tu a pensar? - perguntou-lhe ele baixo, muito terno. Luísa fez-se vermelha. Nãorespondeu. Tinha medo de falar, de lhe dizer...

Basílio tomou-lhe a mão devagarinho, com respeito, com cuidado, como coisa preciosa e santa; e beijou-lha de leve, com a servilidade de um negro e a unção de um devoto. Aquela carícia tão humilde, tão tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cair para o canto do cupê, rompeu a chorar...

Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a, dizia-lhe palavras loucas.

- Queres que fujamos?

As suas lagrimazinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre a aquela face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma vibração quase dolorosa.

- Foge comigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo!

Ela soluçou, murmurou muito doridamente:

- Não digas tolices.

Ele calou-se; pôs a mão sobre os olhos com uma atitude melancólica, pensando:

- "Estou a dizer tolices, não há que ver!"

Luísa limpava as lágrimas, assoando-se devagarinho.

- É nervoso - disse. - É nervoso. Voltamos, sim? Não me sinto bem. volte.

Basílio mandou bater para Lisboa.

(continua...)

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