Por Eça de Queirós (1870)
Eu tinha-me encostado à parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda einsondável come a noite. Um vizinho, cuja ja nela abria para o estreito pátio, para onde dava também a janela de Rytmel, tocava nesse momento na sua rabeca, com uma melan coliaplangente, a valsa do Baile de Máscaras, que, sendo doce e te nebrosa, desperta não sei queideias de festa e de morte, de amor e de claustro.
Rytmel queria levantar Cármen, falar-lhe. Mas ela estava prostrada, com o restoescondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia: — Perdoe-me, perdoe-me!Rytmel, por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, to mou-a nos braços, e disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um encanto infinito beijou-a nos olhos.A pobre criatura corou, eu senti renascerem-se as lágrimas. Querido e pobre Rytmel! como ele teve naquele momento a ternu ra ideal, e o divino encanto do perdão!Ela, com uma simplicidade, em que já se sentia a imensa força interior que lhe dava a fé, falou a Rytmel de Deus, do convento em que queria entrar, da ordem que preferia, com palavras naturais e tocantes, que nos enchiam de mágoa. Por fim beijou a mãe do seuamante.
— Adeus — disse ela. — Para sempre! Rezarei por si. E ia sair, devagar, sucumbida, quando de repente, à porta do quarto, parou, voltou-se,olhou-o longamente os olhos encheram-se-lhe de uma luz sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empalideceu, e com os braços abertos, és lábios cheios debeijos, num ímpeto da sua antiga natureza, correu para se atirar aos braços dele com o frenesi das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, caiu de joelhos, e num grande silêncio e num grande recolhimento beijou-lhe castamente os dedos! Depois tomou-me o braço, e saímos.
Ao outro dia chamou as criadas, e repartiu por elas todos os seus vestidos, rendas e toilettes. Deu as suas jóias a um padre in glês para as distribuir pelos pobres. Frascos,bijutarias, essências, tudo destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia rezando na igreja de S.
João e preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam.A noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta do quarto e entregou-me o seu testamen to, para eu o deixar depositado em Malta, de sorte queD. Nicazio o recebesse à sua volta da Sicília. Deixava-lhe tudo.
Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabe ça e o seu imenso cabelo caiu, quase até ao chão, em grossos anéis, esplêndido, forte, imenso, e de uma poesiasensual.
Tomou uma tesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquelas trançasadmiráveis, que teriam sido uma glória pública no tempo da Grécia. Eu estava absorto pela beleza, magoado como desastre. Parecia-me já aquilo o começo do claustro.Cármen apanhou o cabelo caído, embrulhou-o num lenço, e, entregando-mo, disse:
— Guarde essa lembrança. É a verdadeira Cármen, a outra, que eu lhe deixo aí. Agorapeçolhe uma derradeira coisa. Prepare tudo e leve-me a Cádis. Amanhã... é possível? — Amanhã, não; mas dentro de uma semana, juro-lhe, tere mos visto do mar as montanhas de Valência. Ela, no entanto, passava rapidamente as mãos pelos cabelos, dando-lhes uma feição masculina. Era encantadora assim. A sua beleza tomava uma expressão ingénua de um extraordinário mi mo. Ela sorria ao es pelho, eu olhava-a, e ia, entre as duas luzes, a suaimagem, como num leve vapor azulado e luminoso. Ela, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e compunha o jeito do cabelo. Eu, por trás dela, sorria. Lia, no enlevo do espelho, na surpresa de se achar linda com o cabelo cortado, sorria também. parecia-me verlhe as faces tomarem a cor da vida e o seio a on dulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma coisa doce, chamá-la ao mundo... De repente arremessou o pente, e, curvando a cabeça, foisilenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu leito, e sobre a qual agonizava um Cristo com a cabeça pendente, a testa gotejante, os braços distendidos, o peito constelado de chagas!
XIII
Daí a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da Índia a Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rise ficava, e o Chiado esperava-o! Demais, o estar sócom a condessa emba raçava-o; as melancolias dela, as suas lágrimas inexplicáveis, a sua palidez apaixonada, toda a incoerência do seu carácter, que aquele excelente libertinoexplicava pelo nervoso e pelo histeris mo, davam-lhe uma certa fadiga enfastiada, e, como ele dizia, embirrava com romantismos. A condessa, essa, partia resignada:
Rytmel, depois da sua convalescença, iria para a Itália, para aque cer as suas forças aosol de Nápoles, e mais tarde, em Paris, e de pois em Lisboa, teriam alguns meses livres, para, como diziam os antigos poetas, os tecerem de ouro, seda e beijos.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.