Por Eça de Queirós (1901)
Jacinto caminhou lentamente para o poial duma janela, onde caiu esbarrondado pelo desastre, sem resistência ante aquele brusco desaparecimento de toda a Civilização! Eu palpava a enxerga, dura e regelada como um granito de Inverno. E pensando nos luxuosos colchões de penas e molas, tão prodigamente encaixotados no 202, desafoguei também a minha indignação:
-Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos caixotes enormes?...
Jacinto sacudiu amargamente os ombros:
-Encalhados, pôr aí, algures, num barracão!... Em Medina, talvez, nessa horrenda Medina. Indiferença das Companhias, inércia do Silvério... enfim a Península, a barbárie!
Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados pôr céu e monte:
-É uma beleza!
O meu Príncipe, depois de um silêncio grave, murmurou, com a face encostada à mão:
-É uma lindeza... E que paz!
Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, talhões de alface, gordas folhas de abóbora rastejando. Uma eira, velha e mal alisada, dominava o vale, de onde já subia tenuemente a névoa de algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casarão desse lado se encravava em laranjal. E duma fontinha rústica, meio afogada em rosas tremedeiras, corria um longo e rutilante fio de água.
-Estou com apetite desesperado daquela água! – declarou Jacinto, muito sério.
-Também eu... Desçamos ao quintal, hem? E passamos pela cozinha, a saber do frango.
Voltamos à varanda. O meu Príncipe, mais conciliado com o destino inclemente, colheu um cravo amarelo. E pôr outra porta baixa, de rigíssimas ombreiras, mergulhamos numa sala, alastrada de caliça, sem teto, coberta apenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada de pardais.
-Olha para este horror! – murmurava Jacinto arrepiado.
E descemos pôr uma lôbrega escada de castelo, tenteando depois um corredor tenebroso de lajes ásperas, atravancado pôr profundas arcas, capazes de guardar todo o grão duma província. Ao fundo a cozinha, imensa, era uma massa de formas negras, madeira negra, pedra negra, densas negruras de felugem secular. E neste negrume refulgia a um canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos e panelas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta no muro, depois pôr entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, onde se aqueciam e assavam as suas grossas peças de porco e de boi os Jacintos medievais, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, negrejava um poeirento montão de cestas e ferramentas; e a claridade toda entrava pôr uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo rústico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em roda do lume um bando alvoroçado de mulheres depenava frangos, remexia as caçarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas emudeceram quando aparecemos – e de entre elas o pobre Melchior, estonteado, com sangue a espirrar na nédia face de abade, correu para nós, jurando “que o jantarinho de suas Incelências não demorava um credo”...
-E a respeito de camas, ó amigo Melchior?
O digno homem ciciou uma desculpa encolhida “sobre enxergazinhas no chão...”
-É o que basta! – acudi eu, para o consolar. – Pôr uma noite com lençóis frescos...
-Ah, lá pelos lençoizinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu senhor! A gente apanhada sem um colchãozinho de lã, sem um lombozinho de vaca... Que eu já pensei, até lembrei à minha comadre, V. Incas podiam ir dormir aos Ninhos a casa do Silvério. Tinham lá camas de ferro, lavatórios... Ele sempre é uma leguazita e meu caminho...
Jacinto, bondoso, acudiu:
-Não, tudo se arranja, Melchior. Pôr uma noite!... Até gosto mais de dormir em Tormes, na minha casa da serra!
Saímos ao terreiro, retalho de horta fechado pôr grossas rochas encabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde lourejava o centeio. O meu Príncipe bebeu da água nevada e luzidia da fonte, regaladamente, com os beiços na bica; apeteceu a alface rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos duma copada cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a que um bando de pombas branqueava o telhado, deslizamos até ao carreiro, cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Príncipe pasmava para os milheirais, para vetustos carvalhos plantados pôr vetustos Jacintos, para os casebres espalhados sobre os cabeços à orla negra dos pinheirais.
De novo penetramos na avenida de faias e transpusemos o portão senhorial entre o latir dos cães, mais mansos, farejando um dono. Jacinto reconheceu “certa nobreza” na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traçada para nela se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pajens. Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capela, louvou o Silvério, “esse ralasso”, pôr cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.