Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Adaptável, sem rebeldia nem independência de caráter, escrevia pilhérias como um amanuense faz ofícios. Nunca tinha escrito obra de vulto, a não ser uma novela de calembours, em que explorava esse velho filão do roceiro acanhado. Combinava a sua virtuosidade pilhérica com a de escritor de estirados artigos sobre a crise do açúcar e o policiamento da cidade. Era autor de várias revistas, com algumas pilhérias novas e bem achadas. Sem ser moço, não era velho e ia fazendo a sua carreira nos jornais com vagar e submissão, tendo já uma vaga reputação no seio do público. Sabendo da vida de todo o mundo, inventando mesmo, quando os dados lhe faltavam, punha um grande esforço, uma nota de arte no cultivo da maledicência, da “trepação”. Diariamente estudava assuntos, organizava pilhérias e logo que o momento se oferecia desandava. Viera nesse dia. Ao entrar, enquanto Leporace conversava na sala, pusera-se a escrever a sua celebrada seção — “Pulgas e Brotoejas” — constantemente cheia de alusões, de ditinhos, de versos aos políticos, em que ele gastava uma certa dose de talento, já um tanto diminuído pelo automatismo adquirido. Acabando de escrever a seção, procurou um rodeio e dirigiu a conversa para o ponto que queria:

— De fato este Rio tem coisas bem singulares. Vocês conhecem a viúva País Brandão?

Nem todos responderam, mas Leporace que se gabava de conhecer toda a cidade: — as ruas, becos, segredos — acudiu prontamente:

— Ora! Como não? Uma loura de forte nariz romano, que anda sempre de preto? Ora, muito!

— É essa mesma. Mora num palácio na Rua das Laranjeiras...

— Mas que tem ela? indagou Floc.

— É um caso curioso.

Leiva veio interromper a conversa. Há dias que ele estava no jornal, fazendo polícia. Sabendo que eu me fizera continuo, começou a procurar-me e por aí foi travando relações, “engrossando” habilmente, até que um dia entrou como repórter e começou a gritar comigo para que eu lhe trouxesse penas. Losque continuou:

— Passa por séria, por ser um poço de virtudes. Ninguém se anima a requestá-la. O rosto é de Messalina, mas a alma de Cornélia; entretanto...

Calou-se um pouco, suspendeu o auditório, para obter o efeito desejado.

— Mas é curioso, continuou devagar; é curioso que o seu egoísmo familiar a tivesse levado tão longe.

— Por quê? perguntou alguém.

— Por quê!? Porque vive em mancebia com o sobrinho e com o filho.

Os circunstantes não se espantaram; sorriram incredulamente.

— Qual! fez um.

— Engraçado, aduziu sem ir de encontro a dúvida geral, é que ela não pode suportar um só! Hão de ser os dois, juntos, um do lado esquerdo e outro do lado direito... Disse-me a Fulgência, que foi lá criada, que uma noite, não vindo um deles, ela a passou toda na sala de jantar chorando e arrancando os cabelos.

— É um caso curioso de psicopatia sexual, falou Loberant. Em Londres, há casos especiais quase em gênero semelhante; mas ao contrário: é um homem para duas mulheres, parentas próximas, irmãs, mãe e filha; mas como este não conhecia... Mas quem te informou, Losque?

— Uma rapariga que é minha criada, e foi da viúva. É maravilhoso! Que revulsão na alma! Que móveis íntimos a levaram a isso! Que forte ideal amoroso não encontrado foi esse que a obrigou a reunir dois rapazes para satisfazê-lo!

Leporace então observou:

— Esta sociedade está muito corrupta.

Gregoróvitch entrava e ainda ouviu as palavras do secretário. Parou um instante, concertou os óculos de aros de ouro e exclamou com malícia:

— Oh! Catão!

— Não sou Catão, mas o que há por aí, pelos bastidores, causa espanto. A sociedade, ao que parece, despenha-se...

— Sempre houve quem dissesse isso, objetou o russo. Se examinares os satíricos de todos os tempos, eles te revelarão a sociedade sempre corrupta e desbocada... Eu julgo a moral impossível!

— Por quê?

— Porque é feita para diminuir em nós o que é de mais estrutural e de mais profundo: a individualidade, o prazer e os instintos!

— Mas a sociedade precisa repousar nela; senão... disse Leporace.

— Não há dúvida!

— Então concordas que, em face da própria sociedade, nós nos devemos esforçar por justificar as regras morais, manter sempre de pé os seus preceitos.

— Mas se têm sido inúteis todos os esforços das religiões — a força mais poderosa para uma modificação inteira do indivíduo, como havemos de consegui-lo? Demais... demais, para quê?

— Para a eternidade da espécie, falou com ênfase Leporace.

— Valeria a pena? retrucou Gregoróvitch.

E todos se calaram sem achar de pronto uma resposta cabal.

X

Os meus primeiros conhecimentos foram-se paulatinamente afastando de mim. Laje da Silva, desde que me vira de botas rotas e esfomeado, passara a cumprimentar-me friamente, superiormente; Leiva tratava-me bem ainda, mas marcando distância, desde que se fizera repórter; e o próprio Gregoróvitch esquecera-se da maneira por que nos

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4647484950...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →