Por Coelho Neto (1906)
— Ontem não foi possível, tive muito que fazer. Vou hoje.
A velha afastou-se e Paulo, deitando-se de novo, a fumar, recapitulou o desastre da véspera: quase todo o dinheiro perdido ao jogo, num só número, o 28. Como sair daquele aperto? A quem recorrer? Não lhe lembrava o nome de um amigo, de um conhecido. Como derradeira e única esperança ocorreu-lhe o do velho Fábio. Não tinha coragem de o procurar. Se lhe escrevesse? Mamede levaria a carta. Com tal idéia voltou-lhe a calma, serenou como se já houvesse recebido a quantia e, assobiando, saltou da cama, sentou-se à mesa e pôs-se a redigir uma carta aflita referindo-se, com grandes queixas, à Violante "única culpada daqueles embaraços em que se viam".
O pedido era de duzentos mil-réis e, acrescentava, mentindo, que: "tendo conseguido um emprego vantajoso, no mês próximo saldaria o débito, ficando eterna a gratidão". Animado, vestiu-se, fechou a carta na gaveta e passou à sala de jantar. Dona Júlia, sentada à mesa, cerzia uns pares de meias e, quando o viu aparecer, disse-lhe lentamente, sem levantar os olhos:
— Olha, Paulo, vai ver esse dinheiro. O homem ficou aborrecido. — Aborrecido, por quê? Não dei fiador? Que espere!
Foi ao banho e, tomando apenas uma xícara de café, vestiu-se saindo para a estalagem. Mamede recebeu-o sorrindo e, como ele lhe falasse da carta, pôs-se imediatamente à sua disposição.
— Vosmecê quer esperar a resposta aqui ou na cidade?
— Como quiseres.
— Aqui é melhor.
— Pois sim.
— Eu vou num pulo. — Vestiu-se às pressas e pronto, com um bengalão debaixo do braço, despediu-se, dizendo, a rir: Eu sei que vamos ter cena; aquilo é agarrado que nem ostra, mas manda, para vosmecê ele manda, afirmou convencido, a enrolar um cigarro. Então até já, nhozinho. — Até já, Mamede.
Deixou-se ficar a um canto, e, vendo um velho almanaque em cima da mesa, tomou-o, pôs-se a folhear as páginas amarelecidas e rotas, procurando anedotas. As lavadeiras, em zaragalhada, chalravam, cantavam, batiam a roupa, ao sol; pequenos, em fraldas de camisa, empinavam papagaios. Na casa contígua uma máquina de costura estrepitava e a voz rouca de um homem cantarolava amores. Ritinha, que não aparecera, pouco depois do mulato haver saído, perguntou do fundo da casa:
— Quer uma xícara de café?
Paulo estremeceu ao ouvir-lhe a voz e, sorrindo, respondeu vagaroso:
— Não sou pobre soberbo.
E, entre os dois, com a cortina de permeio, travou-se um curto diálogo.
— É o senhor que fugiu daqui?
— Não...
— Por que não tem aparecido?
— Trabalhos.
— Faço idéia!
— Palavra. Estou com os estudos.
— Então não pode tirar uma hora, ao menos, para ver a gente?
— Vontade não me falta.
E, folheando distraidamente o almanaque, sorria.
— Gosta com muito açúcar? — Não muito.
Soaram passos no corredor e Ritinha, afastando a cortina, passou o braço roliço oferecendo a xícara de café. O estudante, não lhe podendo ver o rosto, perguntou:
— Está com vergonha de mim?
— Uê... Vergonha? Vergonha por quê? Eu, não! — Então por que não aparece?
Um risinho infantil foi a resposta, logo depois, o rosto risonho da mulata mostrou-se, com os olhos muito pretos e vivos, a boca vermelha e úmida entreaberta descobrindo os dentinhos brancos que reluziam.
— Quem é bonita assim não se esconde.
— Bonita! Eu?! coitada de mim! Quem perdeu boniteza para eu achar?
Paulo tomou a xícara e pôs-se a chuchurrear o café lentamente, sorrindo para a mulata que se bambaleava dengosa.
— Mamede foi muito longe?
— Ao Engenho Novo.
— Nossa Senhora! Fazer o quê?
— A negócio...
— Negócio...! — e esticou o lábio carnudo, mordendo-o depois, com um sorvo, d'olhos faceiramente revirados. Por fim, derreando a cabeça, num quebranto, esticou o braço para receber a xícara. O rapaz fitou-a abrasado. — Que é que está me olhando? Deixe ver a xícara.
Paulo ardia em volúpia. Adiantou um passo, ainda indeciso, hesitante, com medo. Ela baixou os olhos fingindo-se distraída. De repente, como se o houvessem impelido, achou-se no corredor, face a face com a rapariga. Ela encolheu-se, colada à parede, os braços cruzados como a defender o colo; estava em mangas de camisa, com uma saia de ramagens.
— Que é isto? O senhor está doido!? — exclamou arrepiada, retraindo-se.
Paulo ficou a contemplá-la, sem uma palavra, trêmulo, farejando o cheiro sensual que se desprendia daquela carne de mestiça, viçosa e árdega. Adiantou-se com a humildade de um vencido, balbuciando tremulamente:
— Ritinha.
— Que é? fez ela, toda lânguida, d'olhos úmidos, inclinando a cabeça sobre o ombro nu, reluzente.
Ele estendeu a mão, ela curvou-se, arisca, encolhida:
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.