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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

A Melica, a altiva e requebrada Amália, lambisgóia, proporções de vareta, fina e longa, morena e airosa, levava o tempo a fazer de princesa. Dois grandes olhos pretos, exagero dos olhos pretos da mãe, tomavam-lhe a face, dando-lhe de frente a semelhança justa de um belo I com dois pingos. Por estes olhos e por sobre os ombros, que tinha erguidos e mefistofélicos, derramavam se desdéns sobre tudo e sobre todos. Possuía e petiscava a certeza fácil de que o Ateneu em peso andava caído por ela, e morava no andor imaginário daquela idolatria de trezentos. Trezentos corações, trezentos desdéns. A eminência do pai sobre aquele mundozinho desprezível dava-lhe vida à vanglória, e ela gostava de visitar o colégio para ter ocasião de exercitar a altivez culminante, misturada, do sexo e da hierarquia. Quanto a Rômulo, era o primeiro no seu desprezo. Timbrava em não prestar-lhe atenção. Designava-o esplendidamente: — o parvo. Melica era bem conservada e preciosa.

Rômulo filosofava por Epicuro. Desdéns não matam. Havia de bom naquela atitude de noivado perene, uma série de utilidade: cargo de vigilante, privilégios de benevolência, um jantar de vez em quando com o diretor, — isto é, uma folga ao paladar imaginada em sonho por quantas bocas, no regime obrigatório e destemperado da casa, menu permanente, inviolável como a letra das constituições.

Quando vinha Melica ao Ateneu, era Rômulo o primeiro a aproximar-se, o último a ser visto. Aristarco chamava-o às vezes e levava a passeio com a menina. Melica, toda donaire e orgulho, passava adiante e permitia, quando muito, que Rômulo a seguisse cabisbaixo e mudo, como um hipopótamo domesticado. Diga-se, a bem da verdade, que o gorducho esperava rir por último ao pai e à filha.

Em um estabelecimento de rumorosa fama como o Ateneu não se podia deixar de incluir no quadro das artes a música de pancadaria.

Passava despercebido o harmonium do Sampaio, religioso e bálbuce. Estimava-se como coisa somenos a rabequinha do Cunha, choramingas e expressiva, nas mãos do esguio violinista; manhoso o instrumento como uma casa de maternidade, pálido o músico, espichadinho e clorótico; dando ares de graça à linguagem das cravelhas por meio de sons que imitavam a quase afasia timorata e infantil do Cunha, descambando em síncopes, de vez em quando, estendendo guinchos histéricos de amor vadio, saltitando pizzicatos como as biqueiras de verniz do Cunha, amigo de valsar, ágil no baile como as fitas, as plumas e as evaporadas tules.

Considerava-se razoavelmente o piano do Alberto Souto, bochechas largas de maestro em efígie, pianista portento que viera parar ao Ateneu, depois de percorrer a Europa à cata de triunfos, redondo, curto e musical como um cilindro de realejo; famoso pela gargalhada soez, bagaço espremido da vaidade, da cobiça, que lhe ficara dos sucessos do palco e das surras da aprendizagem; e pela estupidez seca nos estudos, como se a inteligência lhe houvesse escapado pelos dedos para os teclados em deserção definitiva.

Mas a predileção de Aristarco era pela banda, pela pancadaria, grita vibrante dos cobres, fuzilaria das vaquetas, levando gente à janela quando o Ateneu passava, dando rebate à admiração das esquinas, o estrépito das caixas troando à marcha dobrada como um eco de combates, furor infrene, irresistível, de zabumbada em feira.

A banda tinha casa própria e um professor bem pago. Os instrumentistas gozavam de particular favor nos relaxamentos de disciplina; nas ocasiões de festa eram mimoseados com um brinde de gulodices; condecoravam-se com distintivos de prata, que nem os harmoniosos concertantes do Orfeão logravam pilhar.

Ainda na banda graduava-se a predileção de Aristarco, segundo a importância de sonoridade dos timbres. O grave bombardão, o oficlide, a trompa, o trombone, o próprio sax, destinados ao mister secundário de acompanhamento, recuando, como lacaios, na encenação sonora, homens e armas servilmente bravos nas investidas brilhantes, ou tímidos pajens, arrepanhando o abandono de caudas escapadas ao luxo régio das grandes notas do canto, — valiam menos ainda, na estima do diretor, que na marcação da partitura.

Predileto era o flautim, florete feito som, tênue, penetrante, perfuração de agulhas: predileta era a requinta, espécie de flautim rachado, agressiva como a vibração do dardo das serpentes; o fagote, aumentativo de requinta, único aparelho capaz de produzir artificialmente a fanhosidade colérica das sogras; o claro oboé, laringe metálica de um cantor de epopéias, heróico e belo; o pistão frenético e vivo, estandarte à mostra sobre a celeuma, harmonizando, centralizando a instrumentação como um regimento de cavalheiros. Prediletos porque gritavam mais! Prediletos principalmente o tambor e o bombo tonante, primazia do estrondo, a trovoada das peles tesas, que a tormenta sobraça nos arroubos de carnaval canalha dos seus dias e que sobraçava, no Ateneu Rômulo, o graxo Rômulo, o nédio, o opulento, o caríssimo genro das esperanças caras.

Foi exatamente por esta seriação de preferências acústicas que chegou Aristarco à descoberta do seu favorito. E por acaso.

Durante uma festa escolar, exibia-se a banda. Distrai-se o bombo e solta fora de tempo um magnífico tiro, que ia bem à composição executada como uma gota de tinta Monteiro numa aquarela. Metade dos ouvintes acreditaram que aquilo era um capricho wagneriano enxertado de propósito; outra metade não conteve o riso.

Aristarco admirava o bombo em solo, solidão das salvas em pleno mar, fator grandioso de sonoridade que o Zé Pereira multiplica Mas o riso dos convidados incomodou-o.

(continua...)

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