Por Adolfo Caminha (1896)
— Amabilíssimo! Perguntou pelo Raul, pela Julinha, pelos Holanda... até pelo Condicional!...
Furtado já encontrara a mulher no vale dos lençóis, e, enquanto se despia) ela lhe ia dizendo tudo.
A noite estava fresca: eram os primeiros dias do inverno que aproximava eriçando a cabeleira das árvores.
Evaristo e a mulher tinham visto, da janela, entrar e sair o visconde. O bacharel não se conteve: — armou o punho indignado:
— Corja!
E recolheu cheio de ódio, tempestuoso, numa das suas explosões mal contidas de jacobino incendiário. — "Neste país devia haver uma forca, um cadafalso em cada esquina!"
Quanto a Adelaide, continuava a abrir-lhe os olhos:
— "Vamo-nos daqui, Evaristo... Mudemo-nos de uma vez... Abandonemos este Rio de Janeiro, que é um inferno... uma tentação!"
Furtado não a esquecera, apesar da discórdia que reinava entre as duas famílias. Era o primeiro a querer que ela se mudasse, que o bacharel fosse morar em outra casa, longe de Botafogo, mas não do Rio de Janeiro...
Adelaide cativava-o ainda irresistivelmente. Nas horas em que os dois casais se reuniam para almoçar ou jantar, ele sentia afluir-lhe do coração todo o sangue das veias numa pletora sensual, num gozo abstrato e mudo, que o desnorteava; e ela, como se lhe percebesse as secretas maquinações e a intensidade do calor afetivo, nem o olhava sequer...
As refeições eram rápidas agora — rápidas e frias como o cumprimento de um dever penoso. Trocavam-se glacialmente os — bons dias! — e quase não se falava mais, quase não se dizia outra coisa.
O bacharel era homem de resoluções momentâneas e inesperadas; opunhase a qualquer idéia da esposa, mas acabava sempre concordando com ela, e o seu fiat era um decreto irrevogável.
Adelaide dera-lhe a maior prova que uma mulher pode dar ao marido de não estar em via de aumentar a espécie humana, e ele resignara-se. Vendo-a, porém, definhar, emagrecer, e estranhando-lhe certos hábitos, como o de acordar alta noite, sobressaltada, o de não comer com o mesmo apetite de quando tudo andava em ordem naquela casa, e, principalmente, o de amofinar à mais leve contrariedade, chorando às vezes, como uma criança, quando ele lhe fazia qualquer censura — vendo-a nesse estado de desequilíbrio nervoso, pensou em chamar médico.
— Por amor de Deus, Evaristo, não faça tal coisa! — rogou Adelaide.
— Por quê? Não andas doente? Não te queixas tanto?
— Pelo amor de Deus! O que eu quero é ir-me embora do Rio de Janeiro, ainda que seja para um deserto! Arranquem-me daqui, tirem-me deste inferno — é o que eu quero...
Evaristo, meio intrigado com aquela relutância da esposa, com aquela idéia fixa de deixar o Rio de Janeiro - ela, que a princípio tanto encanto achava nele refletiu, tornou a refletir, sacrificando, nesse duro trabalho mental, as guias do bigode, que lhe não era muito farto, e optou pelo regresso a Coqueiros. Adelaide queria, não é assim? Fiat voluntas... Em primeiro lugar estava ela, sua mulher, depois o Rio de Janeiro.
Franqueza, franqueza... ele também se dera muito mal no Rio. Hipocrisia, hipocrisia e mais hipocrisia era o que a gente encontrava. O próprio Luís Furtado e a própria Sra. D. Branca o que eram, senão uns hipócritas? O visconde, o desembargador, o Condicional, o Pessegueiro... tudo uma corja de hipócritas! Adelaide tinha muita razão, muitíssima razão.
E sempre agitado, esfarelando o bigode, tomou o primeiro jornal que lhe caiu nas vistas.
— Que dia é hoje?
— Primeiro de maio.
— Ah... Bem; no dia dez temos vapor para o norte...
— Estás resolvido, então?...
— Mais que resolvido. Não podemos continuar nesta terra... tu, porque andas com a saúde arruinada, eu, porque tenho arruinado o espírito... De um lado o corpo, doutro lado a alma. O Rio é muito bom, sim senhores, mas para quem tem flexível a espinha dorsal e o caráter. Preparemos a trouxa!
Adelaide ficou olhando o marido, com um risinho seco e incrédulo à flor dos lábios, a mão no queixo, a cabeça inclinada numa pose de modelo vivo.
— Por que me olhas com esses olhos tão admirados? — perguntou o bacharel agarrado ao Comércio do Rio.
— Por nada...
— Já disse: preparemos a trouxa. Amanhã vou me despedir do Banco e telegrafar ao Rocha.
Adelaide continuava a olhar Evaristo, sem o compreender, sem compreender toda aquela precipitação.
— Não me venhas com histórias... — tornou ele.
— Mas...
— Que mas o quê! Para longe deste inferno! para longe desta porqueira!
Vive-se melhor, mais barato e mais honradamente na obscuridade da província, criando galinhas ou plantando jerimuns. Estou farto de aturar a pedantocracia de Botafogo e do Sr. Luís Furtado. Um bacharel em direito vive em qualquer parte do mundo: vou advogar, vou esperar a República no sertão!
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.