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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

A mulher, esse ente imperfeito e adorável, que dantes o levava a cometer tamanhos desatinos, convertera-se agora, para ele, no mais feio objeto de desprezo; quanto mais bela fosse, quanto mais terna, mais digna de ser amada, tanto mais Pedro Ruivo a execrava. Agora, a um beijo preferia um par de botas e, de bom grado, trocaria todos os sorridos feminis do mundo por uma miserável nota de cinco mil réis. A fome, o mau trato, os vícios dele e os do seu sangue, transformaram-lhe completamente o corpo. Já nada existia daquele tipo asseado e simpático que vimos no Porto passear de braço dado à Cecília no domingo da excursão à quinta. Seus olhos tinham perdido o brilho sensual dos outros tempos, e deixavam-se agora engolir sonolentamente pelas pálpebras bambas e amortecidas; o nariz, de fino e bem feito que fora, transformara-se em um torpe objeto, informe, gorduroso e vermelho; a boca perdera dentes e descaíra pelo hábito do cachimbo; o velho abuso do álcool principiava também a reclamar os seus direitos e sacudia-lhe já com delirium tremens os membros narcotizados pela aguardente.

Todo ele era inchação, tosse, reumatismo e maus humores. Já não podia beber um trago sem ficar logo embriagado e trêmulo. E, sem roupa, sem dinheiro, sem vontade de viver, escrofuloso e porco, arrastava-se pelas tavernas, dormia pelas calçadas, bebia nos chafarizes e pedinchava pelas casas de pasto.

Neste estado, dormitava uma tarde nos bancos do Passeio Público, quando ouviu perto de si a conversa de dois tipos, que falavam animadamente. Um era o comendador Portela; o outro o leitor reconhecerá depois.

— Mas onde estão os papéis?... perguntou o Portela, chegando a boca ao ouvido do companheiro.

— Estão ainda no hotel do Caboclo, dentro da minha mala: Posso ir buscálos hoje mesmo e entregá-los ao senhor, contanto que, no ato da entrega, o amigo...

— Caia com o continho de réis!... Está dito, pode ficar descansado! Leve-me os papéis e terá o dinheiro!

— Bem, vou então buscar a mala, prometeu o sujeito ao comendador; e levo-lhe depois os documentos.

— Ou então, olhe! o melhor é seguirmos juntos; vamos lá para casa, e mandamos buscar a mala por uma pessoa de confiança. Lá no hotel saberão entregá-la?

— Isso é o menos. Não tenho outra malinha de ferro em meu quarto, mas, é que certos objetos não devemos confiar a ninguém...

— Bom! bom! volveu o comendador; escusa de desconfiar com a gente! Já cá não está quem falou. Vá você mesmo buscar a sua mala...

E os dois, depois de conversarem ainda por algum tempo, saíram vagarosamente do Passeio Público.

Mas, Pedro Ruivo, que ouvira toda a conversa, havia já disparado com direção ao hotel do Caboclo.

CAPÍTULO XV

AVENIDA ESTRELA

Pedro Ruivo, chegado que foi ao hotel, tratou logo de saber reservadamente como se chamava o hóspede que ele vira a conversar no Passeio Público com o comendador Portela.

— João Rosa, disseram-lhe.

O embusteiro dirigiu-se então ao gerente da casa e explicou-lhe que a pessoa daquele nome mandava que lhe entregassem ali uma pequena caixa de ferro, que estava no seu quarto.

— Vá você mesmo buscá-la, respondeu o gerente. É aquele o quarto.

E mostrou uma porta ao fundo de um corredor sombrio e mal arejado.

— A chave! reclamou Pedro Ruivo.

— A chave? pois você não a traz? O hóspede desse quarto nunca a deixa no hotel...

Pedro Ruivo deu aos diabos a sua má estrela. Queixou-se de João Rosa, do gerente, de si próprio, e afinal desceu muito desapontado as escadas e colocou-se à porta do hotel, para ver se mariscava alguma coisa.

— Ora bolas! dizia ele consigo; quando um diabo dá para caipora é isto que se vê!...

E reconhecendo João Rosa em um sujeito que acabava de entrar, apartouse, receoso de que descobrissem a sua tentativa de há pouco. Todavia ninguém no hotel notou sequer a rápida entrada e a imediata saída daquele. Fora simplesmente buscar o cofre ao seu quarto. Pedro Ruivo estava assentado ao canto, quando o viu passar todo atarefado a sobraçar o precioso cofre.

— Ali vai o meu tesouro! resmungou o gatuno e, ferido por uma idéia súbita, levantou-se rapidamente, tirou o chapéu e disse ao Rosa com uma doce voz de bom homem: Ó patrãozinho! dê esse carretinho a ganhar à gente! V. S. vai aí a molestarse...

João Rosa hesitou a princípio, mas julgando bem do peso do cofre pela má impressão que principiava a sentir no braço, perguntou ao carregador quanto queria para levá-lo até à rua Direita e, depois de ajustar, passou-o para as mãos do Ruivo.

Quem visse o modo simples pelo qual este recebeu aquele objeto; o ar modesto com que ele, de pé, esperava humildemente que o outro abrisse caminho, não seria capaz de suspeitar nem de leve das suas intenções.

O Rosa seguiu adiante, Ruivo acompanhou-o a pequena distância; mal porém tinham feito uns quarenta passos, já o último se havia enfiado pela porta de um café, que ficava na esquina, e saído pela porta da outra rua, enquanto Rosa mais adiante o procurava com a vista.

(continua...)

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