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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Foi o caso que tendo Matias Vidal negros e moradores de sua confiança, devidamente espalhados por dentro do mato, e empregados em vigiar durante a noite os caminhos, por sinais assentados antes tinham estes vigias dado aviso da aproximação do bando aos outros negros e moradores, que correram sem demora a impedir o passo aos assaltantes. De há muito suspeitava Matias que o Tunda-Cumbe, em oferecendo-se ocasião oportuna, não deixaria para mais tarde a sua desforra. Todavia, não estaria preparado para frustrar tão facilmente este ataque inopinado, se outra razão o não determinasse a ter prontos meios de debelar qualquer agressão, por forte e súbita que fosse. É a razão que diremos. Assentado ficara entre os nobres em casa de João da Cunha, antes de dissolvido o ajuntamento aí celebrado na noite de S.João, que, não obstante dever-se esperar, para resolução definitiva, por noticias e indicações formais das autoridades e amigos da capital, prudente era que cada um dos proprietários presentes tratasse de organizar sem perda de tempo terços defensivos, com seus moradores e escravos. Dado este importante passo, era fácil dentro em pouco tempo, no caso de necessidade, mobilizar-se em Goiana uma grande massa de gente, que acudisse ao primeiro reclamo da capital, quer para engrossar o cerco, se esta fosse a idéia predominante, quer para tomar de assalto o Recife e destruir o governo constituído pelos mascates dentro nesta vila. Se não fossem reclamados socorros, nem por isso se perderia o que estivesse feito, visto que, devendo-se ter por mais que provável que a reação se generalizasse mais dia menos dia, ter cada um dos senhores-de-engenho junto de se seu contingente, era o mesmo que estar defendido em sua família e propriedade. A demonstração pratica da excelência e sabedoria deste acordo, foi Matias Vidal o primeiro que a teve, pelo que fica escrito.

Esta lição, porém, longe de encurtar, posto que fosse incruenta, os arrojos do chefe dos bandoleiros, o incitou a investida ainda mais grave.

O dia seguinte sendo Domingo, apresentou-se ele muito cedo na vila, deliberado a praticar qualquer distúrbio, que, produzindo escândalo, para logo desse lugar a que seu nome soasse como o de um diligente e fiel servidor dos mascates, tanto em Goiana, testemunha do insulto, como no Recife, aonde logo havia de chegar a noticia dele.

Estava-se em 3 de julho. Os espíritos achavam-se por extremo excitados. Os parciais da nobreza, animados por saberem que tinha ela por se o governador, já restituído a sua liberdade, não perdiam ensejo de exaltar a sua força e ostentar o poder que dá a autoridade. Os parciais dos mascates não faziam por menos, publicando que sem dinheiro comprariam os mais nobres da terra, inventando inumeráveis relações de comunidade entre os rebeldes proeminentes e o governador geral do Brasil, d. Francisco de Souza, seu filho, e outros importantes vultos da Baia e de Portugal.

Varias eram as pessoas que na botica do Rogoberto matavam o tempo enquanto o sino da matriz não vibrava a Segunda chamada para a missa conventual. Entre essas pessoas apontavam-se Jeronimo Paes e Belchior. Serviam de assunto as ultimas noticias chegadas do Recife. Eis a substancia de tais noticias. D. Manoel, logo que se achou de novo de posse da autoridade, mandou publicar na vila o edital pelo qual eram intimados os oficiais da milícia e os demais moradores que estavam em armas a retirar-se das fortalezas com as respectivas guarnições, a fim de entrarem os povos no sossego do costume, sob pena de serem havidos por traidores e inimigos da paz, e ficarem por isso sujeitos ao rigor das leis. Não tendo querido, porém, os revoltosos aceitar estes avisos, e devendo-se por isso dar começo a procidencias mais enérgicas, para as quais, por ser de paz e perdão o seu ministério, não se julgava o mais próprio, resolveu encarregar do governo militar o ouvidor geral, dr. Luiz de Valenzuela Ortiz, o mestre de campo Christovão de Mendonça Arraez e o senado da câmara de Olinda, que se compunha do coronel Domingos Bezerra Monteiro, capitão Antonio Bezerra Cavalcanti e tenente Estevão Soares de Aragão.

O procedimento do prelado era considerado como covardia no congresso da botica. Belchior, para dar mais autoridade a este juízo, recordava diferentes circunstancias passadas, a saber, a partida de d. Manoel para a Paraíba quando desfecharam o tiro no governador Caldas; o ter-se deixado prender pelos mercadores no dia 18 do mês anterior; e outras circunstancias que não são para o nosso caso. O bispo não é mais do que um vilão ruim, um desprezível instrumento dos Cavalcantis que querem ter sempre curvados a seus pés, como têm os negros dos seus engenhos, os povos de Pernambuco. Os mascates não precisam dele para castigarem a soberba e arrogância dessa nobreza de meia tigela, que o que traz limpo em seu sangue deve a esses mesmos mascates; porque o que daí não procede, é cor da noite de África ou cor do fogo das aldeias.

Palavras não eram ditas quando um filho de Jorge Cavalcant, que vinha montado em fogoso ginete, chegandose à porta da botica assim retorquiu, montado como estava, a Belchior com o calor e a imprudência dos primeiros anos: - Vilões ruins são aqueles brasileiros desnaturados que se vendem ao ouro ou rendem às lábias dos estrangeiros, cujo sentimento não é outro que o de revolverem a terra onde encontraram hospedagem. Esses, sim, são os mais infames vilões que pisam na terra de Camarão e de Henrique Dias. Sua baixeza não se compara nem mesmo com a dos que mordem a mão que deveriam beijar.

(continua...)

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