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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Foi Deus, meu amo, disse o velho com voz arquejante, e nos olhos já quase embaciados pelas sombras da morte divisava-se um lampejo de alegria- foi Deus, que o trouxe aqui agora. . . Eu ia morrer com o coração tão triste. . . ah! esta velha! . . . esta velha é o diabo que me entrou pela casa. Deus me perdoe! . . .

- Não te embaraces com ela, Simão; já lá se foi. . .

- Não creia, patrão, há de andar por aí rondando para nos escutar. Vá ver primeiro, patrão, tenha paciência; e volte depressa. Tenho muito que lhe contar, e não sei se a morte me dará tempo.

Elias, cheio de curiosidade e assombro, saiu sutilmente da alcova e foi rodear a cabana. A velha estava de feito do lado de fora com o ouvido colado à parede do quarto, onde se achava o moribundo. Apenas porém pressentiu Elias, foise retirando e resmungando horríveis pragas.

-mau fim tenhas tu, velho feiticeiro, e a teu louco patrão, rosnava a velha. É esse o pago que me dás de te ter agüentado até aqui com toda a paciência! . . .

- Cala-te, velha bruxa! . . . se te encontrar aqui mais a espreitar e escutar, atiro-te com um pau a vontade de voltar mais cá.

A velha amedrontada com a ameaça de Elias que há pouco tivera razão para crer que não ficaria só em palavras, sem nunca deixar de resmungar pragas e maldições, foi recolher-se à sua casa que ficava a uma centena de passos.

Elias voltou pressuroso ao quarto do enfermo.

- Agora podes falar, Simão, disse sentando-se à beirada do girau. Ninguém nos ouve; estamos completamente sós. . .

mas não. . . espera. Vou ver os meios de procurar-te algum socorro. . . coitado do meu Simão! . . . aqui tão desamparado! . . . e nas garras desta bruxa maldita! . . . vou mandar ver um médico.

- Qual médico, patrão! . . . não tome esse trabalho. . . uma a duas horas de vida é o mais que me resta. . . se tanto. . .

- É o que pensas, meu pobre Simão; quem sabe? . . . Em todo caso não posso deixar-te morrer assim à míngua de socorro. . . Dize-me, não haverá por aqui algum vizinho que tenha préstimo a não ser essa velha maldita? . . .

- Oh! patrão, por piedade! não cuide nisso. . . o tempo é pouco. . . sinto-me morrer. . .

-morrer! . . . não; tem ânimo, meu Simão. . . eu vou. . .

- E quando voltar, me achará morto, e o que é pior ainda, roubado!

- Roubado! . . . exclamou Elias com um triste sorriso, pensando que aquilo era já o delírio da agonia.

- Sim, patrão; roubado! . . . fique aí sossegado. . . tenho muito que lhe contar, e há de ser já. Depois faça o que quiser.

A curiosidade de Elias era grande, ansiosa, e o estado do velho camarada era com efeito extremo, e ele podia expirar de um momento para outro. Forçoso foi pois ceder à rogativa do pobre camarada que, com a voz sumida entrecortada de gemidos, a custo pôde fazer a seguinte narração:

- Quando Vmcê. Foi-se embora para o Sincorá, meu único cuidado foi andar esgravatando por todo esse rio abaixo e acima a ver se Deus me ajudava e se eu descobria alguma lavra bem rica para meu patrão. Meu patrão velho, coitado, Deus o tenha em sua glória! . . . quando ele morreu, deixou Vmcê. Pequenino a meu cuidado. Como é que eu havia de morrer sossegado se deixasse Vmcê. Pobre e desamparado neste mundo! . . . Para mim, pobre velho cansado e sozinho no mundo, o que eu quero fazer com diamante? . . . era para Vmcê. Com o almocafre no ombro e a bateia na mão andei provando as formações por toda essa beira de rio. Perdi muito tempo, sem achar. . . mas, Deus louvado, sempre fazia algum vintém para ir passando o resto da vida. A resto Nossa Senhora do Patrocínio me ouviu. . . sempre achei o que eu e Vmcê. Andávamos procurando há tanto tempo. Que lavra, patrão! . . . é uma lavra de estrondo! . . . eu ia morrer com tamanho pesar, se não lhe pudesse contar! . . . mas Deus foi de misericórdia. . . agora morro sossegado. . .

Elias ouvia atônito aquelas palavras do velho camarada e não ousava dar-lhes crédito. Eram seguramente delírios da imaginação de um moribundo, e em sua incredulidade quase se envergonhava de toma-las ao sério.

- Pobre Simão! . . . refletiu consigo, a razão já o vai abandonando com a vida! Não podia conceber que à cabeceira de um miserável moribundo a fortuna e a felicidade o esperassem, como por vezes o infortúnio costumava-se ocultar entre as rosas de um festim para nos desfechar um golpe fatal e imprevisto. Todavia não pôde deixar de interromper o velho, e dirigir-lhe com ávida curiosidade esta pergunta:

- Uma lavra! . . . tu deliras, meu pobre Simão! . . . onde está ela? . . .

- Eu já lhe conto. . . ah! se Vmcê. Não aparecesse tão a tempo! . . . Vmcê. está duvidando? . . . aqui está o que lhe há de fazer acabar de crer. . . é o diamante, que eu já tinha tirado. . . isto é seu. . . se Vmcê. Não aparecesse, tudo isto ia parar nas mãos daquela malvada mulher, Deus me perdoe a mim e a ela!

(continua...)

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