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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

É escusado dizer, que não faltaram apaixonados àquela tão sedutora quão peregrina formosura. Mas como já corria pela aldeia a história da morte do cacique que às mãos da frágil menina pagara com a vida a sua audácia, os amantes de Jupira tinham-lhe certo respeito, e não a requestavam senão com certa timidez e reserva, se bem que nenhum deles tivesse intenção de lançar-lhe mãos violentas. Mas aquele episódio de sua vida rodeando-a de um terrível prestígio servia-lhe de salvaguarda, e de broquel contra qualquer desacato ao seu pudor.

Entre os amantes de Jupira o mais assíduo, ardente e apaixonado, e

talvez também o mais guapo, o mais rico e considerado de todos, era um mancebo por nome Quirino, filho de um abastado fazendeiro daqueles arredores. Era um rapagão alto e bem disposto, de barba cerrada e negra, e pupila ardente e viva, em que transluzia todo o fogo de sua alma capaz de todos os extremos.

Quirino amava, não como se ama na cidade, onde se namora muito e ama-se quase nada, mas como se ama no sertão, em meio da solidão, debaixo daqueles céus ardentes, no seio daquela natureza esplêndida: amava com paixão, com fogo. Quirino freqüentava assiduamente a casa de José Luís, onde cercava a rapariga de mil atenções, obséquios e adorações, sem que ela nem de leve se mostrasse sensível a tantas demonstrações de afeto, por mais que ele empregasse todos os meios ao seu alcance para ganhar-lhe o coração. A princípio nem lhe passava pelo pensamento casarse com uma pobre cabocla filha de uma gentia e criada nos matos.

Porém quanto maior era a insensibilidade e esquivança de Jupira, mais ardente se tomava a paixão do rapaz, e mais se lhe atiçava o desejo de possuí-la; estava disposto a empregar todos os meios, a fazer todos os sacrifícios para esse fim.

Como Jupira tratava todos os outros amantes com a mesma indiferença e talvez pior do que a ele, Quirino entendeu que toda aquela insensível esquivança não era senão resultado dos poucos anos e da selvática timidez e acanhamento da rapariga, e esperava que de modo nenhum ela recusasse uma proposta de casamento com um moço como ele era, bem apessoado, rico e de boa família. Depois de ter lutado em vão por vencer a obstinada indiferença da menina, era aquele o seu último recurso. Uma vez casado mais fácil lhe seria catequizá-la e ganhar-lhe a vontade e o coração.

Demais, já esse casamento não lhe parecia tão ridículo e desigual, pois Jupira era filha legítima de José Luís, e José Luís empregado do seminário, tinha adquirido alguns bens de fortuna, e era homem que gozava de respeito e consideração no lugar. Quirino pois, não hesitou mais um instante, e foi pedir-lhe a mão de sua filha.

José Luís acolheu com infinita satisfação a proposta do mancebo; não podia desejar melhor partido nem maior ventura para sua filha, e foi logo comunicar-lhe a pretensão do moço.

Ela porém com grande pasmo e desgosto de José Luís recusou-se obstinadamente a semelhante casamento. Foi debalde que José Luís por muitos dias lutou com ela empregando exortações, conselhos, súplicas e até por fim repreensões e ameaças para induzi-la a aceitar a mão de Quirino.

– Meu pai, – disse-lhe ela afinal com um sorriso, que fez arrepiaremse as carnes de José Luís, – ninguém será capaz de dar-me um marido contra a minha vontade; eu já sei como a gente se livra deles, quando nos querem levar à força!

José Luís assombrado com aquela resposta recolheu-se ao silêncio, e desistiu do seu propósito.

Capítulo VI

Quirino enganava-se; a indiferença de Jupira para com ele não era simples efeito da timidez selvática, nem da inocência própria dos verdes anos da rapariga; tinha outro motivo mais poderoso, o qual Quirino absolutamente ignorava. Para aquele temperamento de fogo, para aquela alma inflamável, aos quinze anos o amor era uma necessidade imperiosa, Jupira começava a amar outro.

O leitor há de se lembrar de Carlito, sobrinho de José Luís, aquele menino travesso que ele pusera como sentinela a sua filha durante a sua anterior estada na casa paterna.

Carlito, que agora apenas entrava na puberdade, se bem que não fosse estudante, tinha morada no seminário, mas ia com muita freqüência à casa do tio, onde tinha entrada franca por todos os cantos, entrando e saindo à hora que lhe aprazia. Era impossível que em tão contínuo contato com sua formosa prima não ficasse gostando dela.

Carlito por sua parte era um adolescente lesto, bem disposto, e de encantadora presença. Ainda mais uma circunstância era própria para tornálo agradável aos olhos de Jupira; era ágil e travesso como ela; tinha artelhos de aço, e corria e saltava como um gamo; trepava a uma árvore como um sagüi, e nadava como a lontra.

Foi vagueando e brincando à sombra dos laranjais em flor, ao murmúrio da fonte do quintal, que aquelas duas almas, virgens como duas pombas novas que começam a bater as asas fora do ninho, arrularam em segredo seus primeiros amores.

(continua...)

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