Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
— Pergunto, senhora, se vos dá gosto que eu vos repita o que convosco se passou, quando tomáveis um sorvete ao lado de um jovem de cabelos negros... o que convosco conversou o meu colega Filipe, quando tomáveis chá?
— Eu não preciso saber mais nada disso.
— Então dir-vos-ei o que mais vos interessa; sossegarei mesmo os vossos cuidados e os de sr. Filipe, a respeito da perda de certo objeto...
— Sr. Augusto!
— Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter
— Sr. Augusto!
— Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter ao caramanchão; e essa trança pára hoje em minhas mãos, ei-la aqui...
— Oh! Dê-ma.
— Não preferis antes que eu a entregue ao feliz para quem a destináveis?
— Não, eu lhe peço que ma dê.
— Eu estou pronto a obedecer-vos, senhora, mas só na hora de minha partida. Vós quatro queríeis zombar de mim, e não concebo até onde iria a vossa vingança; preciso de reféns que assegurem a paz entre nós, estes são os meus; quereis saber mais alguma coisa?
— Eu já sei que o senhor sabe demais!
— Então...
Quer, como às duas primeiras, oferecer-me a mão e obrigar-me a desamparar o campo? Venceu, senhor, e sou eu que lhe peço que me acompanheis até à porta da gruta.
— Eu estou pronto, senhora, para servir-vos em tudo.
Só restava d. Joaninha: era a vez dela.
— Eu vos deixei para o fim, disse Augusto, porque a vós é que eu mais admiro, porque vós sois exatamente a única dentre elas que tem amado melhor e que mais infeliz tem sido; eu vos explicarei isto. Sois, todavia, um pouco excessiva em exigências.
— Que quer dizer, sr. Augusto?
— Que quereis muito, quando ordenais a um estudante que vos escreva quatro vezes por semana, pelo menos; que passe defronte de vossa casa quatro vezes por dia; que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que freqüentais, e até que não fume charutos de Havana, nem de Manilha, por ser falta de patriotismo.
Quem lhe disse isso, senhor?
— A fada, senhora, que sabe que amais a um moço, a quem dais a honra de chamar querido primo.
— E uma vil traição!
— Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada, e ainda mais, senhora, quer que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel, que não sabe pagar o vosso amor: eu poderia dar-vos provas...
— Não as tenho eu bastantes, exclamou d. Joaninha com sentimento, quando lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim somente?
Augusto ia falar; ela o interrompeu.
— Senhor, eu agradeço o benefício que recebi; o senhor quis zombar de mim, como das outras, mas não o fez; ao contrário, atalhou em princípio uma grande enfermidade, que, talvez, fosse daqui a pouco tempo incurável! Eu galanteio também às vezes, porém sei amar ao extremo. Adeus, senhor! Eu posso apenas agradecer-lhe, dizendo que tenho tanta confiança na sua discrição e no seu caráter, que nem mesmo lhe recomendo o cuidado do meu segredo.
D. Joaninha ia deixar a gruta, e Augusto lhe ofereceu o braço.
— Agradecida, disse ela; permita que eu entre sé em casa. Augusto ficou sé. Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que acabava de ter lugar; finalmente disse, soltando uma risada:
— Vieram buscar lã e saíram tosquiadas!
E já estava para pôr o pé fora da gruta, quando uma voz branda e sonora o suspendeu, dizendo:
— Agora, sr. Augusto, é chegada a sua vez...
CAPÍTULO XVIII
Achou quem o tosquiasse
Escutando aquelas inesperadas palavras que o chamavam para a mesma posição em que ele tinha colocado as quatro moças, Augusto voltou-se de repente e viu no fundo da gruta a interessante Moreninha, que enchia o copo de prata.
— Minha senhora!... balbuciou o estudante confuso.
D. Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado sorriso e depois assim:
— Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro senhoras; uma outra toma o cuidado de vingá-las. Sr. estudante, eu também sou adepta ao culto desta fada e vou invocá-la em meu auxílio.
A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu copo d’água e depois, imitando o estilo de Augusto que se achava junto dela, disse:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.