Por Eça de Queirós (1887)
Enlevado e cantarolando, eu trotava ao comprido de uma sebe toda entrelaçada de rosas. Mas Topsius deteve-me; mostrou-me no alto de um outeiro, sobre um fundo sombrio de ciprestes e cedros, uma casa abrindo, para o lado do Oriente e da luz, o seu pórtico branco. Pertencia, disse ele, a um romano, parente de Valério Grato, antigo Legado Imperial da Síria; e tudo ali parecia penetrado de paz amável e de graça latina. Um tapete viçoso, de relva bem lisa, estendia-se em declive até uma álea de alfazema, tendo ao meio, sobre o verde, desenhadas com linhas de flores escarlates, as iniciais de Valério Grato; em redor, entre canteiros de rosas, de açucenas, orladas de mirto, resplandeciam nobres vasos de mármore coríntico, onde se enrolavam folhas de acanto; um servo, de capuz cinzento, talhava um teixo em forma de urna, ao lado de um buxo alto já talhado sabiamente em feitio da lira; aves domésticas picavam o chão, coberto de areia escarlate, numa rua de plátanos onde os braços de hera faziam, de tronco a tronco, festões como os que ornam um templo; a rama dos loureiros velava de sombras a nudez das estátuas. E sob um caramanchão de vinha, ao rumor da água lenta cantando numa bacia de bronze, um velho de toga, sereno, risonho, ditoso, lia junto a uma imagem de Esculápio um longo rolo de papiro, enquanto uma rapariga, com uma flecha de ouro nas tranças, toda vestida de linho alvo, fazia uma grinalda com as flores que lhe enchiam o regaço... Ao passo dos nossos cavalos, ela ergueu os olhos claros. Topsius gritou: Oh, salve, pulquerríma! Eu gritei - Viva la gracia! Os melros cantavam nas romãzeiras em flor.
Mais adiante o facundo Topsius deteve-me ainda, apontando-me outra vivenda de campo, escura e severa entre ciprestes; e disse-me baixo que era de Osânias, um rico saduceu de Jerusalém, da família pontifical de Boetos, e membro do Sanedrim. Nenhum ornato pagão lhe profanava os muros. Quadrada, fechada, hirta, ela reproduzia a austeridade da lei. Mas os largos celeiros, cobertos de colmo, os lagares, os vinhedos, diziam as riquezas feitas de duros tributos; no pátio dez escravos não bastavam a guardar os sacos de trigo, odres, carneiros marcados de vermelho, recolhidos em pagamento do dízimo nesse dia de Páscoa. Junto à estrada, com uma piedade ostentosa, caiada de fresco, reluzia, ao sol, entre roseiras, a sepultura doméstica.
Assim caminhando chegamos aos palmares onde se aninha Betfagé. E por um atalho virente que Topsius conhecia, começamos a subir o Monte das Oliveiras, até o lagar da Moabita - que é uma paragem de caravanas nessa infinita, vetusta via real que vem do Egito, seguindo até Damasco, a bem regada.
E foi como um deslumbramento, ao encontrarmos sobre todo o monte, por entre os olivedos da encosta até ao Cédron, por entre os pomares do vale até Siloé, em meio dos túmulos novos dos sacrificadores, e mesmo para os lados onde se empoeira a estrada de Hébron, o despertar rumoroso de todo um povo acampado! Tendas negras do deserto, feitas de peles de carneiro e rodeadas de pedras; barracas de lona, da gente da Iduméia, alvejando ao sol entre as verduras; cabanas armadas com ramos, onde se abrigam os pastores de Ascalon; toldos de tapetes que os peregrinos de Neftali suspendem em varas de cedro; era toda a Judéia, às portas de Jerusalém, a celebrar a Páscoa sagrada! E havia ainda, em volta ao casal onde velava um posto de legionários, os mercadores gregos da Decápola, tecelões fenícios de Tiberíade, e a gente pagã que, através de Samaria, vem dos lados de Cesaréia e do mar.
Fomos marchando, lentos e cautelosos. A sombra das oliveiras os camelos descarregados ruminavam placidamente; e as éguas da Pérea, com as patas entravadas, pendiam a cabeça sob a espessura das longas crinas. Junto às tendas, cujos panos meio levantados nos deixavam entrever brilhos de armas penduradas, ou o esmalte de um grande prato, raparigas, com os braços reluzindo de braceletes, pisavam entre duas pedras o grão do centeio; outras mungiam as cabras; por toda a parte se acendiam fogos claros; e com os filhos pela mão, o cântaro esguio ao ombro, uma fila de mulheres descia cantando para a fonte de Siloé.
As patas dos nossos cavalos prendiam-se nas cordas retesadas das barracas dos idumeus. Depois estávamos diante de tapetes alastrados, onde um mercador de Cesaréia, com um manto a cartaginesa, vistoso e bordado de flores, expunha peças de linho do Egito, estendia sedas de Cós, fazia reluzir armas marchetadas; ou com um frasco na palma de cada mão, celebrava as perfeições do nardo da Assíria e dos óleos doces da Pártia... Os homens em redor, arredando-se, demoravam em nós os seus olhos lânguidos e altivos; por vezes murmuravam uma injúria surda; ou por causa dos óculos do douto Topsius, um riso de escárnio mostrava dentes agudos de fera, entre rudes barbas negras.
Sobre as árvores, encostados aos muros, filas de mendigos ganiam, mostrando o caco com que rapavam as chagas. Diante de uma cabana feita de ramos de loureiro, um velho obeso, rubro como um sileno, apregoava o vinho fresco de Siquém, as favas novas de abril. Os homens fuscos do deserto apinhavam-se em torno dos gigos de fruta. Um pastor de Áscalon, em andas, no meio de um rebanho de cordeiros brancos, tocava buzina, chamando os devotos a comprar o anho puro da Páscoa. E por entre a multidão onde constantemente se erguiam paus, em lixas bruscas, soldados romanos rondavam aos pares, com um ramo de oliveira no capacete, benignos e paternais.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.