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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Tanto desprezo indignou Alípio: endireitou-se, pálido, e tomando o ferro, balbuciou:

– Estou bem, estou melhor... vamos a isto!

E com uma patada na terra mole, ergueu alto a espada.

O Conde contou-me depois que mal tivera consciência da luta; vira os dois longos clarões das lâminas lustrosas, e subitamente sentiu na orelha uma frialdade fina, penetrante. Recuou com um berro:

– Estou ferido! Estou ferido na orelha!

O cirurgião correu – e a serenidade penetrou longamente, largamente a alma de Alípio, quando o ouviu declarar:

– Não é nada; é um golpezito. Com adesivo está pronto em três dias!

A honra foi, no cerimonial do estilo, declarada satisfeita; os dois adversários que, segundo dizia a acta, se tinham batido como leões, apertaram-se as mãos, chamando-se Excelências, e Alípio voltou para Lisboa com os seus padrinhos, na tipóia, tapando a orelha com o lenço.

Tal foi este combate histórico.

Os jornais da oposição celebraram o orador que sustentava as suas ideias com a espada e derramava por elas o sangue da sua orelha. D. Virgínia sentiu todo o seu amor.66 flamejar mais alto e mais forte, por este homem que lhe parecia superior aos Roldões e aos Oliveiros. Os jornais do Governo, esses sim, falaram com escárnio dos vómitos do orador, mas foram bem depressa reduzidos ao silêncio pelos jornais da oposição, que lembraram que anos antes, o Ministro das Obras Públicas, batendo-se em duelo, não vomitara, mas tivera um tão vergonhoso contratempo intestinal, que fora necessário conduzi-lo a uma venda próxima, onde, durante horas, o prostrado estadista circulou lividamente de um banco da cozinha para um recanto do pátio, como sob a influência dissolvente de óleo de rícino tomado sem discernimento!

Como, porém, nem a intempestiva indigestão de Alípio Abranhos, nem o desastroso relaxamento do Sr. Ministro das Obras Públicas foram exarados nas actas, o público considerou estas insinuações como meras tácticas de discussão política e a coragem de Alípio ficou estabelecida em bases duradoiras. Mais tarde o Conde tinha mesmo uma certa vaidade neste duelo, a que ele chamava o seu «baptismo de sangue». Pelo menos deveu-lhe um resultado estimável: depois dessa gota de sangue, os comentários irritantes sobre a sua passagem para a oposição foram respeitosamente suprimidos.

Foi por este tempo – se me não enganam os documentos que possuo – que se começou a organizar em torno de Alípio Abranhos um grupo fiel de amigos íntimos, a que se chamou maliciosamente a coterie Abranhos ou a panelinha Abranhos, mas que eu depois designei num folhetim do Globo geralmente estimado, com o nome mais respeitoso e mais justo de «Salão de S. Exª». Não se creia, porém, que eu digo o Salão de S. Exª como diria o salão de M.me Récamier, o salão de M.me de Girardin, ou o salão de M.me Adolphe Adam, ou ainda, numa ordem mais efémera e mais boémia, o salão de M.me Troubetskoï; estes salões são uma pura instituição parisiense, que Londres, Viena, Roma, Madrid, Berlim, copiam, dando-lhe a feição particular da raça, das maneiras e da preocupação nacional. Tudo difere, por exemplo, entre um salão de Berlim e um salão de Roma, desde a decoração das salas até às figuras familiares e características. Num salão berlinense, tudo é duro, estreito, hirto, fortemente destacado, desde a cor viva dos papéis ou das sedas baratas, até à forte iluminação de um gás económico, que dá o mesmo tom áspero ao loiro seco dos cabelos das mulheres e à figura regrada do oficial de Estado-Maior.

Pelo contrário, num salão de Roma, tudo é discreto, de meias-tintas, sóbrio, desde a decoração dos mármores plácidos, dos doirados leves, da luz aristocrática dos candelabros, até à palidez dos rostos, ao frufru subtil das caudas dos cardeais e ao murmúrio brando do italiano, falado por vozes discretas e delicadas.

Não falo por experiência própria. A minha posição subalterna na sociedade nunca me permitiu viajar ou penetrar nesses recintos augustos, mas uma pessoa eminente da minha família, meu bom tio Julião, touriste bem conhecido, tem-me esclarecido sobre estas formas luxuosas das civilizações superiores.

Em Lisboa, porém, o Salão não existe. Não me compete estudar aqui as razões desta deficiência: enuncio somente o facto; portanto, quando digo o Salão do Conde d'Abranhos, quero designar uma reunião pacata e íntima, onde se toma um chá bem servido, se abre uma mesa de voltarete, se toca uma valsa conhecida e se fala no preço dos géneros ou nos «podres» das famílias.

As soirées do Conde d'Abranhos eram desta estimável espécie. Não havia cerimonial nem aparato: às dez horas vinha o chá com torradas e bolachas de água e sal; às vezes duas senhoras enlaçadas valsavam graciosamente; não poucas vezes eu fui chamado a recitar alguma poesia dos nossos grandes líricos; e os homens graves repousavam dos cuidados do Estado num pacato voltarete a Vintém.

(continua...)

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