Por Eça de Queirós (1878)
- Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterrâneo ter com os vinhaça e maisvinhaça. E batiam o fandango em camisa! Anda isso por aí em todos os livros.
E erguendo-se nas chinelas:
- E os jesuítas, se vamos a isso! Sim! Diga!
Mas recuou, e levando a mão à pala do boné:
- Um criado da senhora - disse com respeito.
Era Luísa que passava, vestida de preto, o véu descido. Ficaram calados, a olhá-la.
- Que ela é muito bonita! - murmurou a estanqueira, com admiração.
O Paula franziu a testa:
- Não é mau bocado... - disse. E acrescentou, com desdém: - Pra quem gosta daquilo!...
Houve um silêncio. E o Paula rosnou:
- Não são as saias que me levam o tempo, nem disto!...
E bateu no bolso do colete, fazendo tilintar dinheiro.
Tossiu, pigarreou, e ainda áspero:
- Venha de lá um pataco de Xabregas.
Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus olhos arregalaram-se indignados; numa das janelas de cima na casa do Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura enfezada do Pedro, o carpinteiro.
Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braços:
- E agora, que a patroa vai à vida, lá está o rapazola a entender-se com a criada!
Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna:
- Aquela casa vai-se tornando um prostíbulo!
- Um que, Sr. Paula?
- Um prostíbulo, Sra. Helena! E como se dissesse um alcouce!
E, com passos escandalizados, o patriota afastou-se.
Luísa ia enfim ao campo com Basílio. Consentira na véspera, declarando logo que era só um passeio de meia hora, de carruagem, sem se apearem. Basílio ainda insistiu, falando em sombras de alamedas, uma merendinha, relvas Mas ela recusou, muito teimosa, rindo, dizendo: - Nada de relvas!...
E tinham combinado encontrar-se na Praça da Alegria. Chegou tarde, já depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o rosto, toda assustada.
Basílio esperava, fumando, num cupê, à esquina, debaixo de uma árvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luísa entrou fechando atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, esgaçou-se no rufo de seda; e achou-se ao lado dele, muito nervosa, ofegante, com o rosto abrasado, murmurando:
- Que tolice, que tolice esta!
Mal podia falar. O cupê partiu logo a trote. O cocheiro era o Pintéus, um batedor.
- Tão cansada, coitadinha! - disse-lhe Basílio muito meigo. Levantou-lhe o véu; estava suada; osseus largos olhos brilhavam da excitação, da pressa, do medo...
- Que calor, Basílio!
Quis descer um dos vidros do cupê.
- Não, isso não! Podiam vê-los! Quando passassem as portas...
- Para onde vamos nós?
E espreitava, levantando o estore.
- Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio. Não queres?
Encolheu os ombros. Que lhe importava? Ia sossegando; tinha tirado o véu ~ luvas; sorria, abanando-se com o lenço, de onde saia um aroma fresco.
Basílio prendeu-lhe o pulso, pôs-lhe muitos beijos longos, delicados, na pele fina, azulada de veiazinhas.
- Tu prometeste ter juízo! - fez ela com um sorriso cálido olhando-o de lado.
Ora! Mas um beijo, no braço! Que mal havia? Também era necessário não ser beata!
E olhava-a avidamente.
Os velhos estores do cupê corridos eram de seda vermelha, e a luz que os atravessava envolvia num tom igual, cor-de-rosa e quente. Os seus beiços tinham um escarlate molhado, a lisura sã de uma pétala de rosa; e ao canto do olho um ponto de luz movia-se num fluido doce.
Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco trêmulos nas fontes, nos cabelos, com uma carícia fugitiva e assustada, e com a voz humilde:
- Nem um beijo na face, um só?
- Um só? - fez ela.
Pousou-lho delicadamente ao pé da orelha. Mas aquele contato exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluçado; agarrou-a com sofreguidão, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, pela face, pelo chapéu...
- Não! Não! - balbuciava ela, resistindo. - Quero descer! Dize que pare! Batia nos vidros;esforçava-se por correr um, desesperada, magoando os dedos na dura correia suja.
Basílio pôs-se a suplicar; que lhe perdoasse! Que doidice, zangar-se por um beijo! Se ela estava tão linda!... Fazia-o doido. Mas jurava ir quieto, muito quieto...
A carruagem, ao pé das portas, rolava sacudida na calçada miúda; nas terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam imóveis na luz branca e sobre a erva crestada o sol batia duramente numa fulguração continua.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.