Por Eça de Queirós (1870)
— Diz-me: não morreu? Está salvo?- Está — disse eu. — Juras? — Juro.- Quero vê-lo, quero vê-lo já — gritou ela. — O meu xaile, o meu xaile! Procure-me aí o meu xaile. Aposto que não lhe fizeram bem o curativo... Positivamente não lho fizeram! Senão lhe acudo! Que diz ele? Chora? Pobrezinho! Adormeceu? Onde é a ferida? Maldita seja eu! Maldita seja eu!
Com uma exaltação delirante procurava abrir as gavetas, der rubava os móveis,arremessava as roupas, falando, gesticulando, e às vezes cantando.
— Meu Deus, faz-se tarde! Que ando eu a procurar? Que ho ras são? Ele falou no meunome? Veio tomar-me o braço: — Vamos.- Onde?
— Vê-lo. Quero vê-lo. Quero! Não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão, amá-lo,servi-lo, ser a sua criada, a sua enfermeira... Parou, e, desprendendo-se do meu braço: — E a outra? Não a quero ver lá! Ela está lá? Não quero que ela o trate. Mato-a, se avejo. A outra, não, não, não! Não a deixe che gar ao pé dele. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto.Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande sus piro, e caiu no chão imóvel.
Levantei-a, deitei-a no sofá, borrifei-a de água; e ela com uma voz expirante:
— Eu morro! Eu morro... Chame um padre. Não lhe tinha di to... Envenenei-me. — Envenenouse? — gritei aterrado. — Naquele frasco, ali!
XII
O médico, apressadamente chamado, declarou que não havia perigo. Cármen tinha tomado o veneno num preparado fraco, e nu ma porção diminuta. Podia, porém, recear-seque a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação do seu espírito, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se fazia sentir pe los ais soluçados que se lhe desprendiam do peito.Fui então ver a condessa. Não se tinha deitado. Ficara em brulhada num xaile, sentada aos pés da cama, numa atitude ab sorta de dor e de inércia que me encheu de piedade. Eradia. Mas as janelas conservavam-se fechadas, e as luzes ardiam melancoli camente. As jarras estavam cheias de flores.
Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul, para duaspessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flores murchavam.
— Então? — disse ela quando me nu.- Então! Ele está curado, e bom num mês. A condessa deve partir dentro de quinze dias.
— Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instan te que seja! Não me podeimpedir isto: não me impeça, não?
— De modo algum, prima. Eu mesmo lhe facilito. — E ela?- Ela, minha prima? Entrei no quarto dela para a arrastar ao primeiro policeman que passasse. Sai jurando que em toda a parte aquela mulher me havia de achar ao seu lado paradefender e, se ela o quisesse, para a amar.
Tem talvez razão: é uma verdadeira mulher. — É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou neste mundonum aspecto divino foi naquela mulher. É a deusa da paixão. De resto tem a grande qualidade: — a lógica.Eu, na realidade, tomara por Cármen uma grande admiração! Eu, que na sua saúde, e na sua beleza feliz, nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora, nas suas horas de dor e doença, o seu fiel cavalliere serviente. Vi-a convalescer sob os meus cuidados. D. Nicaziotinha ido para Sicília. Sustentei és primeiros passes que ela deu no seu quarto, extremamente magra, como olhar quebra do, uma transparência mórbid a na fisionomia, e a imaginaçãodoente.
Começou logo a entregar-se alongas orações, a leituras piedo sas. O seu intento era entrar num convento em Espanha, e ali, ma tar o seu corpo na penitência e na dor. Passavaagora os dias nas igrejas. Estava mudada nos seus hábitos e nas suas maneiras. A sua beleza mesmo tomava uma expressão ascética. Tinha-se ver dadeiramente desligado do mundo. Àsvezes olhava-me, e dizia de repente, lembrando o convento:
— É triste! Aos vinte e oito anos! Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças, ideias de umaredenção pela oração, pele jejum, pelo silêncio e pela contemplação. Naquele espírito visitado por todas as paixões, e sempre numa vibração exaltada, entrava por seu tur no esombrio catolicismo espanhol, e vende o lugar deserto das ou tras ideias do mundo, acampava lá serenamente.
Um dia pediu-me para ir ver Rytmel antes de partir para Es panha.
— É como irmã da caridade que o quero ver! Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal ilu minado pela desmaiada luz de velas de estearina. A palidez de Rytmel era dolorosa sobre a brancura do seutravesseiro. Cármen entrou, arremessou-se de joelhos ao pé da cama dele, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando longo tempo. Rytmel chorava também.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.