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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

— Como poderíamos arranjar um português para redator, dize lá?

Anos mais tarde, ele não teria dificuldades. O chefe do gabinete da monarquia lusitana encarregar-se-ia de arranjar-lhe um. Floc lembrou um alvitre:

— Encomenda-se a Portugal.

E fui eu encarregado de levar o telegrama ao submarino. Não se tratava já de um redator; pedia-se a uma livraria de Lisboa um redator e dois correspondentes literários. Nos dias seguintes, era o seu primeiro cuidado indagar se já tinha chegado a resposta. Veio afinal. Os correspondentes já estavam arranjados, mas não havia quem quisesse vir. Iam ver. Dias depois, ao abrir a correspondência, Leporace deu com a resposta de Lisboa e correu alvissareiro para o diretor.

— Cá está ele... Está arranjado...

— O quê?

— O redator português.

— Ahn!

E leu o telegrama. Embarcaria no primeiro paquete. Era espirituoso, entendido em coisas portuguesas e queria setecentos mil-réis francos. Aceitou e nesse sentido telegrafou para Lisboa. Quando voltei da Western, Pranzini, o gerente, entrava na redação. Chegava com o sobrecenho carregado e os olhos fuzilando indignados. Pranzini era o cão de fila do diretor. O cofre e a economia do jornal estavam-lhe inteiramente entregues. Ele pagava e recebia, depositava dinheiro, arbitrava os preços da matéria paga. Todos estavam sob a sua tirania; precisavam adulá-lo, amima-lo e ele abusava extraordinariamente dos grandes poderes de que estava investido. Ficava-lhe bem a função. Era cúpido, metódico, organizado. No jornal, vivia sempre em mangas de camisa e a fieira dos botões do colete não se afastava nunca do eixo do peito. A fisionomia era larga e dura; grandes faces assimétricas, queixo forte e quadrado, pouco distinto do maxilar, uma grande dificuldade em sorrir. Aquela inteligência rudimentar de aldeão italiano tinha finuras de doutor da escolástica. Certa vez furtou-se ao pagamento de uma comissão do anúncio de uma casa, sob o pretexto de que a autorização falava em “Bal Masqué” e o nome do estabelecimento era “Au Bal Masqué”. Murmurava-se no jornal que ele desviava um pouco as rendas do diretor, mas dizia-se também que este não se importava porque assim indiretamente pagava as doces intimidades com a amante do italiano, uma pequena mulher, coberta de um pêlo fino e abundante, de carnes duras e grandes ancas provocadoras.

— Sabes, Pranzini? Temos o homem... De Lisboa chegou-nos a resposta.

— É bom... Vocês sabem, sem português, nada aqui vai adiante. Os patrícios exigem, é justo: eles são talvez trezentos mil, pagam rios de dinheiro em anúncios — é justo!

Depois, tomando outro tom de voz falou assim ao diretor:

— Tenho aqui este vale pra o senhor visar.

— Eu já disse a você que não é preciso...

— Não é isso. É que com este tive dúvidas. Tratava-se de um artigo que não saiu assinado. Não parecia ser colaboração e eu...

— De quem é o vale?

— Do Veiga Filho.

— De que artigo?

— Um sobre o Teixeira de Almeida.

— Mas o quê! exclamou o diretor. Pois se foi ele próprio que pediu para escrevê-lo, dizendo-me que tinha sido colega de escola do homem, como é que cobra?... Enfim deixa-me vê-lo.

O doutor considerou bem o pedaço de papel que tinha na mão, abanou a cabeça e veio dizendo:

— Esses literatos! Livra! Até as lágrimas cobram.

Floc nada dissera. Evitava fazer qualquer critica ao mestre incomparável da nossa língua. Losque, tendo deixado de escrever, meteu-se na palestra. Tinha a mania do “espírito”; mas não era propriamente espirito que ele queria ter. A sua mania era ser um ironista, à moda inglesa — um humorista. Fazia de si um retrato de Sterne, de Lamb, de Swift; embora não soubesse urna linha de inglês filiava a sua graça, o seu feitio de rir, no gênio britânico. Não é que isso, de fato, houvesse nele; faltava-lhe na ironia o imprevisto, o alcance moral e filosófico, aquela meditação por absurdo que Taine achou em Swift. Ele tinha a graça fácil dos pequenos autores e muitas das suas boutades tinham origem nos autores portugueses e franceses de segunda ordem. Não era uma atitude de pensamento, um estado d'alma constante, um julgamento sobre os homens e as coisas; era uma profissão, um ganha-pão, que ele executava automaticamente.

(continua...)

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