Por Coelho Neto (1906)
— Não posso! — regougou, debatendo-se.
— Adianta-nos, ao menos, alguma coisa. Quem assim te irrita está conosco, ainda encarnado, ou já subiu para a região pura dos espíritos?
— É um espírito.
— E paira sobre nós?
— Sim...
— Irmão Canedo, — disse o pregador com solenidade, — ponha-se em comunicação com o espírito que paira sobre nós para que possamos estabelecer a concórdia entre as duas almas irmãs.
O nomeado acercou-se da mesa, concentrou-se e entrou a falar com doçura: "Que não tinha ódios, que perdoava..." Mas à pergunta do apóstolo: "Se era homem ou mulher?..." e, à resposta do médium: "Que era mulher..." a mocinha ergueu-se e, espumando, de olhos muito abertos, declarou num grito: "Mentes!" Dona Júlia, profundamente emocionada, rompeu em pranto nervoso, baixando a cabeça sobre o colo. Lembrava-se de Violante. Que seria dela? Onde andaria? Aquele incidente abalou-a, não pelo sofrimento da vítima passiva, mas pelo destino da filha. Pobrezinha! Sem poder conter-se pôs-se de pé chamando a negra imperativamente:
— Vamos, Felícia.
A negra levantou os olhos — duas lágrimas rolaram.
— Agora não, minh'ama.
— Então, fica: eu vou só.
— Como é que minh'ama quer sair? Pois vosmecê não está vendo que ainda não acabou?
— Pois sim, mas eu não espero mais.
E, decidida, a pedir licença, foi-se esgueirando, apertadamente. Os crentes olhavam-na revoltados, murmurando. A negra, vendo-a sair, seguiu-a. O apóstolo foi-lhes ao encontro, muito afável. acompanhando-as ao corredor:
— Então já, minha senhora?
— Sim, senhor. Não posso demorar-me mais.
— A senhora vinha para uma consulta, devia ter experimentado. Mas volte amanhã, mais cedo. Eu faço uma sessão especial. — Sim, senhor.
Não levantava os olhos molhados, caminhando direito à porta. como para fugir. Felícia seguia-a contrariada, meneando com a cabeça.
— Vou invocar um espírito forte, e talvez lhe possa dizer alguma coisa amanhã. Não deixe de vir.
Estendeu-lhe a mão, todo zumbrido, a sorrir.
— Sim, senhor. Até amanhã. — Boa noite, minha senhora.
A grande sala da prece estava em penumbra e deserta. Felícia adiantou-se para guiar a viúva que procurava o corrimão da escada, quase em trevas.
— Devagarinho, minh'ama.
Desceram lentamente, caladas. Na rua, ao ar da noite fria, Dona Júlia respirou aliviada.
— Então, minh'ama.
— Ora, Felícia... deixa-me. Não sei onde é que tens o juízo. Se eu soubesse que era para isso...
— Vosmecê está aborrecida?
— Ah! não... não hei de estar. Cansar-me para ver patacoadas.
— Vosmecê não esperou.
— Não esperei... Esperar o quê? — Parou na sombra e, baixinho, em tom severo: Olha, eu creio em Deus, creio no seu poder e na sua misericórdia... Ninguém é mais crente do que eu, mas não posso admitir essas coisas. E por essas e outras que anda, por aí, tanta gente maluca. Vamo-nos embora.
— Minh'ama está zangada comigo?
— Não, não estou zangada contigo, tu crês. Eu é que aqui não ponho mais os pés.
— Por que, minh'ama?
— Eu?! Isto até devia ser proibido. É porque a polícia não sabe.
— Não fale assim, minh'ama.
Ela insistiu:
— Devia sim, devia ser proibido. Olha, se eu tiver de encontrar Violante, hei de encontrá-la. Há de ser o que Deus quiser. Ela há de lembrar-se de mim, porque tem coração, mas aqui?! aqui...! nunca mais!
— Se vosmecê tivesse fé...
— Qual fé! Olha, eu te digo: pensei que saísse daqui impressionada, e saio só com pena daquela pobre mocinha. É mais uma que estão preparando para o hospício.
— Ah! minh'ama... Vosmecê também...
— Tu hás de ver. Queira Deus que eu me engane.
— Então vosmecê pensa que é ela só? — Não sei, mas essa não acaba bem.
Desciam vagarosamente a Rua da Carioca quando um grande vento passou levantando a poeira. Detiveram-se, de cabeça baixa, coladas à parede, com as saias espadanando. A lua mostrou a lívida face num círculo de grossas nuvens negras, como no fundo de um poço e, aqui, ali, no vasto céu tenebroso, estrelas faiscavam.
— Felizmente não chove, — disse Dona Júlia.
— Só lá para o meio da noite, — augurou a negra, enrolando a trunfa que se desfizera.
CAPÍTULO XI
Eram nove horas da manhã quando Dona Júlia foi bater à porta do quarto do filho, chamando-o. Paulo levantou-se de mau humor.
— Que é, mamãe?
— Está aí o cobrador da casa.
— Que história! Diga-lhe que eu vou levar o dinheiro, que ainda não recebi.
— Por que não falas tu mesmo? Eu tenho tanta vergonha...
— Vergonha de quê? Também a senhora tem vergonha de tudo. Que espere um pouco. Eu não hei de inventar dinheiro.
— E a jóia? — perguntou ela baixinho.
Paulo resmungou:
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.