Por Raul Pompéia (1888)
A palestra no pérola era muito mais cândida, e, principalmente, nada pessoal. Curso improvisado de obstétrica elementar, para especulação. Todos queriam saber; apertavam-se vinte pequenos em roda do problema, como aquelas figuras da lição de Rembrandt. Qual a origem das espécies? Eram investigadores. Ninguém adiantava um passo. Estava ausente o gipaeto, que talvez pudesse explicar. Feliz quem pode conhecer a causa das coisas! Como é a entrada na vida? Ordem dórica? jônica? compósita? As imaginações trabalhadas formigavam avidamente sobre a questão; ninguém penetrava. Desenrolavam-se as teorias domésticas, angélico-ginecológicas.
Havia em Paris uma grande empresa de exportação, da qual eram agentes em todo o mundo os porteiros, e comissária central no Rio Mme. Durocher. Vinha o gênero nos berços, encaixotados, mijadinhos e chorosos. Esta teoria tinha o merecimento filosófico de prescindir das causas finais. Os metafísicos inclinavam-se mais para a intervenção da sobrenatureza: por ocasião do Natal havia de noite uma distribuição geral de herdeirozinhos pela terra, chuva de pimpolhos, para compensar a matança dos inocentes, tão prejudicial no tempo de Herodes. Inútil dizer que os referidos inocentes vinham outrora ao mundo pela mão dos mesmos portadores das credenciais da revelação, hoje em desuso.
E a academiazinha de investigadores arrumava documentos, sorrindo alguns da credulidade dos outros, exibindo em refutação credulidade de diverso quilate; alguns, mais positivos, aduzindo observações próprias, porque os meninos espiam, oferecendo à opinião dos colegas uma nota ponderosa, edificando-se lentamente o sistema como os sistemas se edificam, aproveitando-se apenas o elemento franqueado pelo apoio comum.
Dois últimos pareceres concorreram oportunamente para desatar os embaraços e a assembléia dispersou-se. Um cearensezinho, de cabelo à escova, inteligente e silencioso, amigo de responder por um jeito especial de virar os olhos. senhor de um sorriso desconcertante que sabia armar a propósito, falando baixinho e explícito, introduziu no debate a descrição minuciosa, sem perda de fofos nem apanhados, da toilette balneária das mulheres do sertão na província, descendo ao rio, de um belo pano simpático em que o raio do sol nascente representa de fio mais grosso. Outro parecer foi a grosseira chacota de um caturra barrigudinho, fronte de novilho, miniatura de arrieiro, brutal e maroto, filho de um criador abastado do Paraná e instruído para todas as exigências práticas da indústria paterna. Estava ali a ouvir desde o principio sem dizer palavra, esperando a conclusão. Supondo que o cearense ia fazer a luz, atirou-se adiante, interrompeu-o e concluiu largando o enxurro, esponjando-se farto na garotada, como a cria da estância no lodo fresco.
A vadiagem dos dormitórios não consistia só em palestra. Depravados pelo aborrecimento e pela ociosidade, inventavam extravagâncias de cinismo.
O Cerqueira, ratazana, sujeito cômico, cara feita de beiços, rachada em boca como as romãs maduras, de mãos enormes como um disfarce de pés, galopava a quatro pelos salões, zurrando em fraldas de camisa, escoucinhando uma alegria sincera de mu. Maurílio, o dos quinaus, não era exclusivamente o campeão da tatuada que conhecemos; tinha outra habilidade notável e prestava-se com aplauso a uma experiência original de fluidos inflamáveis. Este rapaz escapou de morrer, em um dos últimos naufrágios da nossa costa; um ex-colega escreveu-lhe: Quem os semeia, colhe tempestades.
As provocações no recreio eram freqüentes, oriundas do enfado; irritadiços todos como feridas; os inspetores a cada passo precisavam intervir em conflitos; as importunações andavam em busca das susceptibilidades; as susceptibilidades a procurar a sarna das importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabelos. Viam Rômulo passar, lançavam-lhe o apelido: mestre cook!
Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Rômulo! só porque lembrava a culinária, com a carnosidade bamba, fofada dos pastelões, ou porque era gordo das enxúndias enganadoras dos fregistas, dissolução mórbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de mais volumosa saúde? Rômulo era simplesmente e completamente o confeiteiro das esperanças doces de Aristarco.
Anafado de aparência, e ainda mais ancho de fortuna, significava bem o que se diz um bom partido. Aristarco tinha uma filha; saúde, fortuna: um genro ideal; ainda por cima bonachão e pacato.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.