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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Rodeava-os a profunda tranqüilidade da sesta. Mal se ouvia sibilar a respiração compassada da senhora do comendador, além do pano de veludo, no fundo da sala, dormindo ao sofá curvada sobre si, como um pescador à espera, ou como se continuasse, de longe, a leitura do romance que lhe correra das mãos e que se abria agora no chão derramando inutilmente os seus episódios, entre as escarradeiras, pelo tapete. Tal qual a boa senhora, tudo em torno parecia adormecido, as franjas, as borlas da tapeçaria, à verga das portas, pendendo imóveis, os tinhorões artificiais das cantoneiras, os prismas das arandelas, como dragonas de vidro de marechais fantásticos perfilados, um galgo de faiança, deitado em rodilha, sobre um dunquerque, num leito de felpas chamejantes, dous retratos de família, meio corpo, fidalgos de D. João VI, pasmados nas molduras seculares, de uma pasmaceira de defuntos, contritos, no seu papel inofensivo de múmias a óleo. As vidraças, que interceptavam os pequenos rumores do exterior mostravam muito verdes pendões de vegetação ramalhuda e vivaz; ainda lá fora, as árvores dormiam no ar morno. O próprio sol deixava, sonolento, aos ramos que lhe embalassem a indolência de ouro. Dous grandes espelhos da sala, inclinados, repetiam na profundidade do cristal a imagem de todo aquele repouso, fazendo eco ao silêncio.

Vencido o primeiro movimento de instintiva repulsa, Amélia se deixara enlaçar. Dobrando para trás a cabeça, pousou-a ao ombro de Armando; tomou-lhe o rosto entre as mãos e o comprimiu contra o seu rosto; confundiram-se os lábios, e os cabelos da fronte. A outra Amélia, a do painel, olhava-os, testemunha complacente daquele amor, com a melancolia do seu olhar, colada ao fundo de céu noturno.

Ouviu-se um beijo no silêncio.

Agora, ela era... a viscondessa.

Egli s'era innamorato

Ma sapea che il mondo intero

Scherno sol gli avria serbato

S'ei dicea quel suo mistero

Força viver com aquele homem. Visconde... visconde... Alma verde de azinhavre, como as suas moedas, como os seus brasões comprados! Mas era o esposo; ela era dele. Que fazer?! Deralhe em dote os despejos palpitantes das ilusões perdidas. Tudo passara, tudo passara!

Ed ei finse... e rise ancora...

Rise... rise... e non guari!

Invocò la morte allora...

E la morte lo rapi!...

Os sons daquela elegia atravessavam a noite, sob o luto do firmamento, como o funeral dos seus enlevos...

Pobre Pulcinella, morto de amor e de Ideal!

Morrem assim os corações!

E Amélia imaginava quantos, quantos! não trazem no peito o cadáver importuno de um coração que tiveram.

Raul Pompéia

FORA DE HORAS

O último amor de Emílio foi uma viúva, antes um capricho feito viúva, ou melhor ainda um demônio feito capricho.

Mme. Lamour, Mme. Lamort, ninguém lhe sabia exatamente o nome. Inscreviam-na dos dous modos, na comédia do mundo alegre, e ela não se dava ao trabalho de expedir uma errata, deixando que vacilasse o apelido de amor ou morte, como o mistério da vida, que tão bem resumia: o incêndio do ditirambo onde as almas ardem e acabam.

Não cuidem, porém, que estragava a meditar simbolismos o ensejo de descanso poupado na agitação da vida impetuosa. Pertenciam-lhe ao egoísmo inerte, como um tesouro de indolência, as horas da sesta, as horas nuas da sesta, no ambiente resguardado do dormitório, quando estirava-se ao divã de veludo preto, fresca da reação do banho, vaidosamente deslumbrada da brancura da própria carne, gostando na epiderme a viagem leve, saltitada, de uma mosca atraída pelas migalhas da última ceia.

A imaginação sonolenta ia e vinha passivamente, na comparação da alvura absoluta das formas, onde se concentrava a luz toda das vidraças entreabertas - com o negrume intenso do forro do divã, das peles do tapete crescidas e retintas, da seda preta do pára-vento atravessado obliquamente pelo vôo pálido de cegonhas de prata, da estranha decoração negra das paredes, da madeira dos móveis, dos encostos de cupidinhos negros esculpidos em luta, enrolando-se, mordendo-se como filhotes de tigre.

Nada perturbava o repouso. Nem um pensamento, nem um ruído. As vidraças detinham fora o ramalhar múrmuro do jardim. Além do biombo, o relógio não batia, parado num longo minuto de felicidade material. Até que chegava o sono, lentamente, respirado na noute fictícia da decoração. junto dela, sobre uma cadeira, dormia a taça de ouro, objeto querido, que mandara fazer, moldada sobre o seio de uma rival defunta.

Estava ausente para todos; mesmo para o amante. Qualquer dos dous, que ela tinha dois, sempre e fielmente: por um exercício duplo de fidelidade, que lhe parecia dobrada virtude.

Às quatro horas, Emílio acordava-a aos beijos. Tinha dois amantes, disse, como tinha dois nomes. Amantes que não se viam, que não se conheciam, que não se encontravam. Manejava habilmente os dois corações, como bolas alternadas de um jogo malabar.

Prezava-os impessoalmente por predicados opostos e incompatíveis, que buscaria em outros amores, se os atuais faltassem. isolá-los reciprocamente era porém o meio de conservar a ilusão do prazer completo de duas existências.

(continua...)

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