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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Um sorriso complacente arqueou-lhe os lábios; todo ele sentiu-se invadido por uma onda de alegria e de ternura paternal. Já não estava ali o republicano exaltado, o homem feroz, o político sem entranhas, o abutre dos monarquistas e dos reis! A simples idéia de que em breve estaria com um bebê ao colo, nascido do seu amor, um novo e legítimo representante dos Holanda, fazia-o outro homem, calmo, generoso, inclinado ao perdão, amigo dos seus inimigos.

Adelaide compreendeu a ilusão do marido e sorriu também:

— Não... não é o que tu pensas...

— Não é! Ora, se é... — Juro-te!

Mas ele, na sua embriaguez, no seu enleio, na extrema felicidade que o assaltava, respondeu:

— O futuro nos dirá...

Com uma voz tão firme, tão convencida, que a esposa, mais meiga do que nunca, tornou a sorrir e beijou-o carinhosamente.

O luar banhava as montanhas com essa claridade misteriosa que faz sonhar em coisas vagas, intangíveis, etéreas, que a linguagem humana não define. Todos os objetos que a vista alcançava pareciam diluir-se, esgazear-se numa neblina luminosa e transparente. Embaixo, na rua, os lampiões, espaçados, morriam de abandono e de tristeza.

Evaristo acendeu o gás, porque — "aquilo estava cheirando a ruínas de Pompéia em noites de luar..."

— Ora, até que enfim! — dizia ele, riscando o fósforo. — Até que, enfim, o muito digno Sr. Evaristo de Holanda acertou no alvo!

CAPÍTULO VIII

O Visconde de Santa Quitéria foi o primeiro a anunciar a chegada do monarca a Lisboa, depois a Paris, depois a Baden-Baden; recebia telegramas diretos, que lhe enviava um amigo da corte, igualmente condecorado por Sua Majestade. E no mesmo dia em que o carteiro lhe entregava o despacho, abalava para Botafogo, dentro do seu cupê de arreios novos, com a notícia na ponta da língua.

Furtado dizia logo à mulher: — "Temos novidade!" E D. Branca ensaiava o melhor dos seus sorrisos para apertar a mão ao banqueiro.

Numa dessas noites (porque era sempre à noite que o visconde visitava os Furtado) — numa dessas noites o Santa Quitéria não encontrou Furtado em casa. O secretário tinha ido à Fábrica das Chitas visitar um amigo doente — ... o que estimei bastante... — acrescentou D. Branca em segredo.

O visconde limitou-se a um - oh! de agradecimento.

Já havia um princípio de discórdia entre os Furtado e os Holanda. Evaristo e a esposa recolhiam agora muito cedo, ao lusco-fusco, para evitar discussões com o outro casal, não obstante o bom gênio do secretário. D. Branca era sempre mais caprichosa e altiva.

De modo que o visconde não podia encontrar melhor ocasião para um rendez-vous amoroso.

Sentaram-se os dois, ele e ela, no sofá, tranqüilamente, numa familiaridade discreta, como se estivessem nalgum remanso impenetrável, interdito a olhos e ouvidos humanos. A questão era falar baixinho, para que as vozes não ecoassem, denunciadoras, além do teto, no aposento dos Holanda.

Ouvia-se o piano de D. Sinhá, na casa do desembargador. Mas a rua, como de costume, estava silenciosa.

O primeiro movimento de D. Branca, depois de sentar-se, foi para entregar ao banqueiro uma carta que há dias lhe andava no bolso do vestido.

— Leia em casa, recomendou.

Ele tomou o envelope, com um carinho singular, e guardou-o.

— Mesmo, aqui não teria encanto...

E entraram a conversar numa voz sibilada, num tom de reza ou de confissão mal quebrando o silêncio da sala. Falavam de amor e do último encontro que haviam tido. Ela achava "um bocadinho" prosaico o escritório da Rua da Alfândega, "um bocadinho exposto".

Já se tratavam por você.

— Você não imagina — dizia ela — o sacrifício que me custou!. E os homens ainda falam mal das mulheres...

Ele, então, fazia-se meigo, derreava a cabeça, sem prejudicar a linha correta do porte, dando palmadinhas na mão dela, numa intimidade de casal. Tirou da botoeira a rosa que trazia e ofereceu-lha com uma graça muitíssimo gentil.

Depois, ela pediu licença por um instante — mandou trazer vinho fino do Porto que o criado apresentou numa salva de prata.

Eram quase dez horas quando o visconde quis retirar-se.

— Agora espere o Lulu - insistiu D. Branca. — Ele não deve tardar...

— Já se havia demorado tanto! — retrucou o banqueiro. O amigo Furtado chegava cansado... e não era bonito, não era correto... E retirou-se.

Quando a campainha deu sinal do secretário, ia para mais de onze horas. A esposa não lhe ocultou a visita do visconde.

— Fizeste mal em o deixar ir.

— Disse que era tarde, que você vinha cansado...

— E que novidades trouxe ele?

— Que a família imperial chegou a Cannes. Os médicos receitaram duchas, estricnina e aplicação do gelo ao imperador.

— Já sei: o tratamento hidroterápico...

— Isso.

— Todos vão bem?

— Todos; o Velho mesmo tem esperança de se restabelecer.

— Coitado! Sempre muito amável, o visconde!

(continua...)

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