Por Franklin Távora (1879)
— Ângelo, venho falar-te sem outra autoridade senão a de amigo sincero que te deseja mil prosperidades e muitas glórias que redundem em proveito dos teus.
— Podes falar com toda a liberdade. Sou o primeiro a reconhecer que uma das minhas mais urgentes necessidades é a de ter um amigo que me dê saudáveis conselhos.
— Vim resoluto a dá-los. Tua mãe, tão discreta, tão conformada com a sua sorte, teve ontem para mim maternais franquezas e comovedores ressentimentos. Considera-te, não sem razão, afastado do caminho que sempre soubeste trilhar, ainda quando estavas nos teus verdes anos. Este triste resultado ela o atribuiu ao teatro, que deve ser, e, quando bem compreendido, certamente escola de bons costumes, edificativa de sã moralidade por exemplos de altas virtudes sociais e domésticas. Sem o afirmar positivamente, deu-me a entender que tudo o que ganhas pela tua profissão das mãos te sai para despesas vãs e inúteis.
Martins ficou aqui. Pousara as vistas no amigo, e pela expressão do semblante parecia ter toda a alma empenhada em conhecer o efeito das suas reflexões. Este não tardou muito a revelar-se; Ângelo, deixando o encosto do sofazinho, sentou-se e respondeu:
— Não obstante chegarem fora de tempo os teus conselhos, ganhaste com eles novo direito à minha gratidão pela boa intenção que os inspirou.
— Chegaram fora de tempo? — inquiriu Martins quase inquieto.
— Estão inteiramente extintas as relações que me prendiam à Júlia.
— Obrigado, obrigado, Ângelo! — disse Martins com efusão de sentimento que não pudera reter em seu coração. Está então tudo acabado? — Tudo, tudo.
Martins procurava no pensamento uma forma, uma frase mais viva para manifestar o seu contentamento ao amigo de infância, quando viu nos olhos deste duas lágrimas a bailarem.
Levantou-se comovido e triste. Deu alguns passos em silêncio pelo gabinete. Ângelo, compreendendo o que a sua fraqueza devera ter feito gerar-se no espírito do amigo, passou o lenço pelos olhos e foi ao encontro de Martins.
— Não duvides das minhas palavras. Senti, sinto ainda o golpe, mas definitivamente está tudo acabado entre mim e essa mulher. Onde havia paixão violenta há agora uma barreira ingente, que nem eu transporei, nem ela transporá. Tive por Júlia grande amor, que ela me retribuiu com isenção de ânimo até pouco tempo. Há duas semanas comecei a notar de sua parte não só resfriamento mas esquivança. Faltou ao prometido, deixando-se ficar na caixa do teatro. Anteontem de tarde, cometi um ato de loucura. Meti-me num carro e mandei tocar para o Monteiro. Ela mora numa casa de terraço com gradil, sobranceira à estrada.
— Sei onde é.
— Júlia estava no terraço, quando apontei na estrada e tanto que me avistou fugiu para dentro. Fiquei indignado. Assaltou-me o pensamento de lhe fazer qualquer manifestação insultuosa; por exemplo, a de lhe atirar uma luva, se ela aparecesse no momento de passar o carro defronte da casa. Ela não apareceu, mas eu estava trêmulo de raiva, e quase não podia governar-me. Mandei parar o carro, meti num dos dedos da luva um anel, que ela me havia dado de presente, e, pondome de pé, atirei a luva e o anel por cima do gradil. Não pude dormir. Mau espírito perdeu-se em vãs conjunturas sobre a origem do desdém de Júlia para comigo. Hoje, seriam dez horas da manhã, entrei no teatro. Ela não fora ao ensaio. Quando eu saía, o porteiro veio ao meu encontro e entregou-me uma carta que podes ler.
Martins tomou a carta e leu:
“Não pense que sou uma mulher vulgar. Sinto ainda pelo senhor grande paixão, não obstante ter assentado cortar todas as relações que existiam ente nós. A explicação do meu procedimento é a que passo a dar. Vieram dizer-me que sua mãe estava sofrendo por meu respeito. Ora, eu venero a mãe de quem quer que seja. Para atalhar os padecimentos de minha mãe, casei-me contra a minha vontade. Ela acompanha-me por toda a parte; por ela tenho feito e farei os maiores sacrifícios. Condoí-me, por isso, de sua mãe sem a conhecer. Por que havia eu de prolongar os eu sofrimento? Se eu pudesse aspirar a possuir o senhor até a morte, talvez o egoísmo, sentimento cruel, me desse ânimo para sustentar a luta com o sentimento maternal, e disputar-lhe a vitória; mas poderei acaso, sem dar triste idéia da minha razão, nutrir semelhante esperança? Presa pelo destino, falaz e fatal. ao teatro, mundo sombrio sobre o qual, se algumas vezes assoma o sol da glória, é mais para mostrar as suas manchas do que para projetar a sua luz, o que me cumpre fazer senão resignar-me ao meu papel e à minha condição? Aceitei por isso a proposta que me fizeram do Maranhão e seguirei para ali no primeiro vapor. Peçolhe que se esqueça de mim, e que me perdoe esta resolução, como eu perdoei o seu insulto que me lançou fel no mais íntimo da alma.
J.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.