Por Bernardo Guimarães (1872)
- Não se aflija, meu patrão: é um pobre velho que está entrevado ali no fundo de uma cama. Há muito tempo que está assim, sem que ninguém possa lhe dar alívio, coitado! . . . dali só para a cova. Se quer dar a ele alguma esmola, podeme entregar, e Deus Nosso Senhor lhe dará o pago. . .
-mas eu mesmo desejava vê-lo; também entendo alguma coisa de medicina, e talvez lhe possa ensinar algum curativo com que se dê bem. . .
-mas o médico que trata dele não quer que receba visita nenhuma, nem fale com ninguém; por isso Vmcê. Não repare, eu não lhe posso abrir a porta. . .
Não tenha cuidado; eu atalharei toda a conversa, e, se for necessário, não lhe darei mesmo uma só palavra. Quero só vê-lo um instante e saio imediatamente.
- Não, senhor; perdão; não pode ser. Ele é muito palrador, e vendo gente começa a tagarelar de modo que nunca mais tem fim; e fica cada vez a pior, a pior; e eu é que o estou agüentando, e isso não me faz conta.
-mas já lhe disse que se ele falar, me retirarei logo, replicou com vivacidade Elias, a quem já começavam a impacientar as negativas da velha, e que mesmo já começava a desconfiar que havia ali algum mistério que a maldita velha estava com medo que ele fosse descobrir. - Em nome do céu, abra essa porta.
- Não, senhor; já lhe disse; não pode ser.
- Ah! senhor! bradou de dentro a voz rouca e alquebrada do enfermo. Quem quer que está aí, pelo amor de Deus, entre cá dentro.
- Está ouvindo? disse Elias, ele me chama; abra essa porta.
- Não, não pode ser; quantas vezes quer que lhe diga?
E depois voltando-se para dentro e abrindo extraordinariamente os enormes olhos, como rã esbordoada, bradou para o enfermo.
- Ah! velhote de uma figa! não pode calar essa boca? . . . é assim que pretende sarar? . . . parece uma criancinha! . . . pois olhe: se continuar assim, não sei se estarei mais para o aturar. . . se quer conversar com todo o mundo que passa, mando pôr sua cama lá no meio da estrada, e eles que o agüentem.
- Quem está aí na porta entre cá por caridade; não faça caso do que ela está dizendo; por caridade! . . . pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! entre. . . entre. . . quanto antes.
- Ai! ai! ai! . . . ululou a velha harpia. Bendito Deus! ainda de mais a mais variado do juízo!
-mulher infernal, bradou Elias com força, abre-me já, se não queres que arrebente a porta.
- Arrebentar! como está bonito o moço! tomara ver isso! . . . porventura a casa é sua? . . . moço, vá andando seu caminho, e não esteja tentando a Deus! já lhe disse que não abro.
E dizendo isto bateu com a janela, e trancou- ª
Elias entendeu que não devia mais esperdiçar palavras com aquela megera. meteu o ombro à franzina porta que estava apenas trancada por uma fraca tramela, e que cedeu logo ao primeiro empurrão.
-misericórdia! guinchou a velha, este homem tem o diabo no corpo! Misericórdia! aqui d’el- rei!
Elias afastou com um empurrão a velha que se apresentara por diante querendo-lhe estorvar a entrada e fazendo uma berraria dos diabos; e foi-se dirigindo rapidamente para a miserável alcova, antes antro, em que jazia o desgraçado velho. Em um girau de pau roliço, desses cujos pés são forquilhas cravadas no chão, naquela espelunca escura e úmida, sobre um imundo colchão de palha, estava estirado um velho caboclo, esquálido e macilento, arquejando
convulsivamente e entregue aos mais dolorosos sofrimentos. Espetada à parede, junto à cabeceira, uma negra candeia de ferro lhe dava sobre o rosto bronzeado um lúgubre clarão amarelento.
- Ah! . . . és tu, meu pobre Simão! exclamou o moço com um tom de assombro e de angústia inexprimível, apenas fitou os olhos na fisionomia do velho. És tu, meu bom Simão! continuou sentando-se à beira do pobre leito, e tomando entre as suas as mãos do velho camarada. Perdoa-me, meu Simão; sou eu o culpado de aqui jazeres assim à míngua! . . .
- Ah! meu patrão! meu patrão! bradou o velho fazendo um esforço supremo para levantar-se e erguendo ao céu os braços descarnados; bendito seja Deus! . . .
- Ah! já eram conhecidos! . . . rosnou com voz trêmula a velha que se tinha postado à porta da alcova, e com os olhos esbugalhados e torvos contemplava cheia de furor aquela cena. Tanto melhor para mim! . . . Olá, meu moço, já que veio tomar conta da casa com tanta sem- cerimônia, fique-se por aí, e arrume-se lá com seu doente, que eu aqui não ponho mais os meus pés.
- Vai-te com Deus ou com o diabo, mulher infernal; nem nunca mais me apareças, que não fazes falta nenhuma.
- Que eu vou, é sem dúvida; Vmcê. Quando veio aqui tentar a gente, já veio de má tenção. . . mas olhe, meu senhorzinho, que talvez não leve o bocado à boca. Às vezes a gente vai buscar lã, e sai tosquiado.
Elias mal ouviu estas palavras, que a velha ao retirar-se ia resmungando entre as queixadas.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.