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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Apenas os índios o reconheceram, soltaram grandes alaridos de dó, recolheram o cadáver em uma grande maca, teceram em torno dele danças fúnebres, e deram-lhe sepultura à sombra de uma velha sucupira.

Feitas as honras fúnebres ao seu valente chefe, aqueles indígenas trataram logo de marchar pela margem do Rio Grande acima a fim de lhe vingarem a morte. A horda de Baguari era muito mais numerosa e forte do que o bando desorganizado em que vivia Jupira, o qual constava de relíquias de hordas devastadas e dispersadas pelos brancos. De longo tempo em contato com os brancos tinham perdido os hábitos belicosos, e grande parte de sua coragem e fereza selvática. Em breve chegou-lhes aos ouvidos a notícia de que a gente de Baguari marchava contra eles a fim de vingar a morte de seu chefe. Fracos e pusilânimes, aqueles restos da família caiapó não podiam resistir aos robustos e aguerridos Guaianás, que sobre eles vinham cheios de cólera e sede de vingança, e seriam infalivelmente exterminados.

Jupira não havia ocultado aos seus a morte do sanhudo Baguari; pelo contrário, risonha e triunfante lhes narrou com toda a franqueza e ingenuidade a astúcia de que se valera para livrar para sempre daquele feroz pretendente. Contando como certa a sua ruína e possuídos de terror, seus covardes companheiros resolveram mandar um emissário ao encontro dos inimigos para dar-lhes satisfações e dizer-lhes que nenhuma parte tinham tido na morte de seu chefe, que fora Jupira a única autora daquele atentado, e que para aplacar sua justa cólera estavam prontos a entregarlhes viva ou morta a criminosa. Este teria sido o destino da linda caboclinha se um de seus pretendentes, esperando assim fazer jus à gratidão e ao amor da rapariga, não a tivesse avisado da bárbara e aleivosa intenção dos seus.

Jupira e sua mãe fugiram para Campo Belo e acolheram-se à fazenda dos padres, resolvidas a nunca mais voltarem para a companhia de seus pérfidos companheiros.

Era já a quarta vez que Jupira desde que nascera trocava a selva pela casa paterna, e a casa pela selva alternativamente. Seu pai a recebeu com os braços abertos, e sentiu grande alegria em tornar a achar a filha, na qual já há muito havia perdido as esperanças de tornar a pôr os olhos em dias de sua vida. Recolheu-a para casa, e extasiado de sua formosura e do viçoso desenvolvimento de suas esbeltas formas deu-lhe lindos vestidos e enfeites, que ela de bom grado trocou pelo curto saiote e pelo canitar de que usava nas selvas, e empregou todos os meios, todas as carícias e seduções possíveis para fixá-la de uma vez para sempre no seio da sociedade civilizada.

Se com os trajos selváticos Jupira por seu garbo e gentileza fazia lembrar uma Moema ou uma Lindóia, vestida à maneira da gente civilizada era uma rapariga sedutora, capaz de alvoroçar o coração e inflamar o sangue de um anacoreta. Era alta e muito bem-feita. Os cabelos negros, corredios e luzentes como asa do anu, eram tão bastos e compridos que a linda cabocla ainda pouco adestrada na arte de se toucar, via-se em apuros para acomodá-los sobre sua pequena cabeça e muitas vezes rebelando-se contra as fitas e prisões, as quebravam e tombando-lhe pelo colo se derramavam em liberdade pelos nédios e morenos ombros. Os olhos um pouco levantados nos cantos exteriores, eram bem rasgados, e dardejavam das pupilas negras lampejos, que denunciavam o ardor de seu temperamento e uma alma enérgica e resoluta. Os lábios rubros, carnosos, e úmidos eram como dois favos túrgidos de mel da mais inefável voluptuosidade, e quando se fendiam em um sorriso mostravam duas linhas de alvíssimos dentes um pouco aguçados como os dos carnívoros, e seu sorriso tinha singular e indefinível expressão de ingenuidade e de selvática fereza. A todos esses encantos, a todas essas linhas e voluptuosas formas, servia como de brilhante invólucro a tez de uma cor original, um róseo acaboclado, como que dourado pelos raios do sol, que dava peregrino relevo à sua linda figura.

Quando ia à missa aos domingos, na pequena capela do seminário todos os olhos voltavam-se para a interessante cabocla, todos a contemplavam sorrindo com o mais curioso interesse e complacência. Até mesmo os seus gestos e ademanes um pouco estouvados, o ar desajeitado e constrangido, com que vergava as suas vestiduras, tudo nela parecia galante, e encantador.

Se bem que na pia batismal tivesse recebido o nome de Maria, os moradores de Campo Belo conservavam-lhe sempre o seu nome indígena de Jupira, por acharem-no mais galante e entenderem que lhe assentava melhor.

(continua...)

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