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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

A baía se estende da ponta do Padrão ao morro do Tinharé, que demora um do outro nove ou dez léguas, ainda que o capitão da capitania dos Ilhéus não quer consentir que se estenda senão da ponta da ilha de Itaparica à do Padrão; mas está já averiguada por sentença, que se estende a baía da ponta do Padrão até Tinharé, como já dito; a qual sentença se deu por haver dúvida entre os rendeiros da capitania dos Ilhéus e da Bahia, sobre a quem pertenciam os dízimos do pescado, que se pescava junto a este morro de Tinharé, o qual dízimo se sentenciou ao rendeiro da Bahia, por se averiguar estender-se a baía do morro para dentro, como na verdade se deve de entender.

C A P Í T U L O XVI

Em que se declaram as barras que tem a Bahia de

Todos os Santos, e como está arrumada a ilha de Itaparica, entre uma barra e a outra.

Acima fica dito como dista a ponta de Tinharé da do Padrão nove ou dez léguas, entre as quais pontas da banda de dentro delas está lançada uma ilha de sete léguas de comprido que se chama Itaparica, a qual Tomé de Sousa, sendo governador-geral do Brasil, deu de sesmaria a D. Antônio de Ataíde, primeiro conde de Castanheira, o que lhe Sua Alteza depois confirmou, e lhe fez nova doação dela, com título de capitão e governador; ao que veio com embargos a Câmara da cidade do Salvador, sobre o que contendem há mais de trinta anos, e lhe impediu sempre a jurisdição, sem até agora se averiguar esta causa. Deixa esta ilha entre si e o morro de Tinharé outra baía mui grande, com fundo e porto, em que podem entrar naus de todo o porte, e tem grande ancoradouro e abrigada à sombra do morro, de que se aproveitam muitas vezes as naus que vêm do reino, quando lhes escasseia o vento, e não podem entrar na baía da ilha para dentro. Da ponta desta ilha de Itaparica à ponta do Padrão está a barra do leste, e entre a outra ponta da ilha e a ponta de Jaguaripe está a barra de loeste, por cada uma destas barras se entra na baía com a proa ao norte. A barra de loeste se chama de Jaguaripe por se meter nela um rio do mesmo nome.. Haverá, da terra firme a essa ponta da ilha, perto de uma légua de terra a terra, a qual barra é aparcelada por ser cheia de baixios de areia, mas tem um canal estreito por onde navegam, pelo qual entram caravelões da costa e barcas dos engenhos; mas há de ser com tempos bonançosos, porque com marulho não se enxerga o canal. E corre grande perigo quem se aventura a cometer esta barra de Jaguaripe com tempo fresco e tormentoso.

C A P Í T U L O XVII

Em que se declara como se navega pela barra de Santo Antônio para entrar na baía.

A barra principal da baía é a banda de leste, a que uns chamam a barra da cidade e outros de Santo Antônio, por estar junto dela, da banda de dentro em um alto, sua ermida; a qual barra tem de terra a terra duas léguas, e tanto dista da ponta do Padrão à terra de Itaparica, como à ponta onde está o curral da Cosme Garção, que é mais saída ao mar. Da banda da ilha tem esta barra uma légua de baixios de pedra, onde o mar anda o mais do tempo em flor. Por entre estes baixios há um canal por onde entram com bonança navios de quarenta tonéis, e fica a barra por onde as naus costumam entrar e sair da parte do Padrão, a qual tem uma légua de largo, que toda tem fundo, por onde entram naus da Índia de todo o porte, no qual espaço não há baixio nenhum. Por esta barra podem entrar as naus de noite e dia com todo o .tempo, sem haver de que se guardar, e os pilotos, que sabem bem esta costa, se não podem alcançar esta barra com de dia, e conhecem a terra, quando a vêem do mar em fora, mareiam-se com a ponta do Padrão, e como ficam a barlavento dela, navegam com a proa ao norte e vão dar consigo no ancoradouro da cidade, onde ficam seguros sobre amarra de todos os ventos, tirado o sudoeste, que, quando venta, ainda que é muito rijo, no inverno, nunca passa a sua tormenta de vinte e quatro horas, nas quais se amarram os navios muito bem, e ficam seguros desta tormenta, que de maravilha acontece: no qual tempo se ajudam os navios uns aos outros, de maneira que não corre perigo, e deste porto da cidade, onde os navios ancoram, à ponta do Padrão, pode ser uma légua.

C A P Í T U L O XVIII

Em que se declara o tamanho do mar da baía, em que podem andar naus à vela, e de algumas ilhas.

(continua...)

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