Por Eça de Queirós (1925)
Quantas sensações, ideias, imaginações, se revolveram naquele vasto e complicado cérebro de estadista. Ele revelou-me algumas dessas torturas em detalhe. Ao princípio tentou correr a casa do Petit, e pedir-lhe que lhe ensinasse um bote-secreto, desses de que lera nos romances, que se aprendem em Itália e que inspiram terror nas salas de esgrima. Pensou em fazer o seu testamento, mas pareceu-lhe um mau agoiro lúgubre. Desejou então que houvesse uma revolução, ou um incêndio que devorasse metade da cidade, uma catástrofe social, e ficava a olhar, desesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo do Quintela. Lembrouse com prazer, com esperança, que o Peixotinho sofria de um aneurisma... Quis rezar, mas distraía-se: permanentemente, via a mesma visão da véspera – um corpo traspassado de estocadas, e uma viúva, desgrenhada, soluçando.
Que desespero! E ainda nessa tarde estava tão seguro, já com todo o perigo passado, saboreando as felicitações do seu fácil heroísmo, descansado para sempre, e agora ali se via outra vez, recaído nas agonias da incerteza e nos terrores da Eternidade...
Enfim, ao outro dia, depois de um sono agitado, uma carruagem que parou à porta despertouo.
Dissera na véspera a D. Virgínia que havia, com efeito um almoço de amigos no Farol da Guia, e que deviam sair cedo; e tão persuadida ela ficara, que apenas murmurou, meio a dormir, voltando-se para a parede:
– Tem cautela... Não faças excessos, sabes que te dá a dor...
Aludia a certos espasmos nervosos de que ele sofria no estômago.
Partiram. A manhã, muito fria, estava nublada e parda. A e B, justo é dizê-lo, que na véspera se tinham mostrado tão secos, tão cortantes, representavam agora com uma solicitude tocante o seu papel de padrinhos. Enquanto a caleche batia – e parecia a Alípio Abranhos que uma tal velocidade era um exagero irritante – davam-lhe conselhos práticos, tirados da própria experiência e adequados aos conhecimentos elementares que Alípio Abranhos tinha da esgrima: – que se não descobrisse muito; a ponta da espada sempre diante dos olhos do adversário; que nunca recuasse – e a sua solicitude era tão grande, que apagaram os charutos matinais, vendo que o fumo enjoava Alípio. O grande orador, no entanto, como ele me revelou mais tarde, sentia uma lassitude extrema, o desejo mórbido de um sono profundo, de anos, em que nada o perturbasse, nem os despeitos do Peixotinho, nem as crises do Estado, nem a piedade dos seus amigos. Por vezes uma casa, ou uma esquina de rua, recordavam-lhe outras épocas de felicidade tranquila, em que a morte lhe aparecia como uma hipótese distante. A morte!... Maldição! Ia agora talvez para ela, ao trote exagerado, estupidamente exagerado,.65 daquela magra parelha de praça... Lamentou então as coisas boas da vida – os jantarzinhos em família, as carícias de Virgínia, o seu quarto em casa das Barrosos, em Coimbra, e os folhados de cocó, de que gostava tanto!
Mas, temendo que o seu silêncio pudesse ser tomado como a prostração do medo, começou a falar com os seus amigos de política com uma prodigiosa lucidez e – segundo me afirmou depois um destes cavalheiros – num tom em que se sentia uma solenidade de testamento.
Chegaram enfim, e viram logo, ao pé de uma árvore magra, o grupo do Peixotinho e dos padrinhos, tagarelando jovialmente.
Depois das saudações tradicionais, os quatro cavalheiros, reunidos ao pé da árvore, falaram baixo, marcaram o terreno, desembrulharam as espadas e colocaram os adversários nos seus lugares, com uma vivacidade muda, que parecia a Alípio Abranhos comparável, segundo o que lera, aos preparativos rápidos e taciturnos dos carrascos sobre o cadafalso.
Apenas colocado, Alípio sentiu com terror tomá-lo um vago enjoo: ou fosse o balanço da tipóia ou o ar frio da madrugada, o estômago, segundo a frase popular, «embrulhava-se-lhe».
Quando lhe deram a sua espada, um suor frio banhou-lhe a testa; uma debilidade esvaía-lhe os rins... Desejou vivamente uma cama, um encosto, mas vendo que o
Peixotinho o fixava por trás dos óculos de ouro, resolveu ser heróico e plantou-se firmemente sobre o solo, erecto, esperando o sinal.
A, bateu as palmas – e então, subitamente, viram Alípio esgazear os olhos, abrir a boca e apoiando-se fortemente sobre a espada, debruçado sobre ela, vomitar, vomitar longamente, primeiro resíduos mal digeridos de comida, depois uma baba gelatinosa, e finalmente, com anseios roucos, fezes esverdeadas! A, sustentava-o pelos ombros; B, amparava-lhe a cabeça, e o grande orador, entre os puxões dos vómitos, murmurava com os lábios babados:
– É do estômago! ... É um bocado... de indigestão!
Todos viram bem que «era do estômago» e ninguém duvidou do seu valor.
Peixoto, porém esquecendo toda a delicadeza, disse alto, com desdém, voltando-se para os seus padrinhos:
– Eu esperarei... Deixá-lo vomitar... Que vomite, que vomite!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.