Por Eça de Queirós (1878)
- Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Está melhor? Fale! Juliana deu umsuspiro longo, de alivio, cerrou as pálpebras. E arquejava
devagarinho, muito prostrada.
- Como se sente? Quer um caldinho? É fraqueza; há de ser fraqueza... Foi a pontada murmurou Juliana.
Ai! Aqueles frenesis matavam-na! - dizia a cozinheira, remexendo-lhe o caldo, muito pálida também. - A gente tinha de aturar os amos! Que tomasse a "substância", que sossegasse!...
Naquele momento Luísa abriu a porta. Vinha em colete e saia branca.
Que barulho era aquele?
A Sra. Juliana, que lhe tinha dado uma coisa, quase desmaiara...
Foi a pontada - balbuciou Juliana.
E erguendo-se, com um esforço:
- Se a senhora não precisa nada, vou ao médico...
- Vá, vá! disse Luísa logo. E desceu.
Juliana pôs-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joana consolava-a baixo: Também, a Sra. Juliana arrenegava-se por qualquer coisa. E quando a gente tem pouca saúde não há nada pior que enfrenesiar-se...
- É que não imagina! - e abafava a voz arregalando os olhos. - Tem estado de não se poderaturar! Está-se a vestir que nem para uma partida! Amarfanhou uns poucos de colares, atirou-os para o chão, que eu engomava que era uma porcaria, que não servia para nada... Ai! Estou farta! - repetia. - Estou farta!
- É ter paciência! Todos têm a sua cruz!
Juliana teve um sorriso lívido, ergueu-se com um grande "ai", escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao sótão.
Daí a pouco, de luvas pretas, muito amarela, saiu.
Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. Até ao médico era um estirão!... E estava, que lhe tremiam as pernas!... Mas também, largar três tostões para trem!...
- Psiu, psiu! - fez do lado uma voz doce.
Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu sorriso desconsolado.
Que era feito da Sra. Juliana? A dar o seu passeio, hem?
Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo de osso. De muito gosto - disse.
- E como ia de saúde?
Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao médico...
Mas a estanqueira não tinha fé nos médicos. Era dinheiro deitado à rua... Citou a doença do seu homem, os gastos, um ror de moedas. E para quê? Para o ver penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro que sempre chorava!
E suspirou. Enfim, fosse feita a vontade de Deus! E lá por casa do senhor engenheiro?
- Tudo sem novidade.
- Ó Sra. Juliana, quem é aquele rapaz que vai agora por lá todos os dias?
Juliana respondeu logo:
- É o primo da senhora.
- Dão-se muito!...
- Parece.
Tossiu, e com um cumprimentozinho:
- Pois, muito boas tardes, Sra. Helena.
E foi resmungando:
- Ora, fica-te a chuchar no dedo, lesma!
Juliana detestava a vizinhança; sabia que a escarneciam, que a imitavam, que lhe chamavam a "Tripa Velha"!... Pois também dela não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro. - "Para uma ocasião" - pensava com rancor, sacudindo os quadris.
A estanqueira ficou à porta, despeitada. E o Paula dos móveis, que as vira conversar, veio logo, deslizando sutilmente nas suas chinelas de tapete:
- Então a Tripa Velha escorregou-se? Ai! Não se lhe tira nada!
O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tédio:
- Aquilo, a do Engenheiro besunta-lhe as mãos... É ela quem abre a portita de noite...
- Tanto não direi! Credo!
Paula fitou-a com superioridade:
- A Sra. Helena está ai ao seu balcão... Mas eu é que as conheço, as mulheres da altasociedade! Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma cambada!
Citou logo nomes, alguns ilustres; tinham amantes inumeráveis: até trintanários. Algumas fumavam, outras entortavam-se. E pior! E pior!
- E passeiam por ai, muito repimpadas de carrinho, à barba da gente de bem!
- Falta de religião! - suspirou a estanqueira.
O Paula encolheu os ombros:
- A religião é que é, Sra. Helena! Com os padres é que é!
E agitando furioso o punho fechado:
- Com os padres é uma choldra viva!
- Credo, Sr. Paula, que até lhe fica mal!...
E o carão amarelado da estanqueira tinha uma severidade de devota ofendida.
- Ora, histórias, Sra. Helena! - exclamou o homem com desprezo.
E bruscamente:
- Por que é que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo lá dentro.
- Oh, Sr. Paula! Oh, Sr. Paula! - balbuciava a Helena, recuando, encolhendo-seO Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.