Por Eça de Queirós (1870)
O mais racional era conduzi-lo a um quarto do hotel; mas isso era dar ao facto umapublicidade ruidosa, fazê-lo cair sob o domí nio da polícia, arrastar até à acção dos tribunais ingleses o nome da condessa. Porque eu tinha compreendido tudo. Sabia agora, bem, quem na véspera entrara rapidamente pela porta verde com uma chave falsa. Sabia bem a quempertencia o punhal índio acha do nas moitas de buxo. Compreendia a comoção de Cármen, quando eu a surpreender a ali, no jardim, embuçada num burnous, esperando. Ecompreendia, desgraçadamente, a que quarto se diri giam os passos de Rytmel dentro do jardim de Clarence-Hotel.
Era, pois, necessário encobrir aquela aventura. E Rytmel, apesar dos obscurecimentosdo desmaio e da dor, tinha-o pensado também, porque me disse com uma voz expirante:
— Escondam-me em qualquer parte!Sai logo à rua. Passava um daqueles canos ligeiros, de um só cavalo, que percorrem, com extrema velocidade, e com imensa doçura, as mas inclinadas de La Valeta. O vetturino era italiano. Falei-lhe vagamente num duelo, dei-lhe um punhado de xelins, ameacei-o comos policemen, e pu-lo absolutamente ao serviço do meu segredo.Colocámos Rytmel no cano; com mantas fizemos-lhe uma espécie de ninho, cómodo e mole, e o cavalo trotou, rapidamente, pela Rua de S. Marcos, para casa de Rytmel. Aí granderumor entre os oficiais ingleses. Eu contei uma incoerente história de assalto ao florete, em que a minha arma, subitamente, se tinha desembolado. A história era inaceitável; mas erafácil compreender que havia por trás dela um segredo delicado, e isto era o bastante para a altiva reserva de gentlemen.
Rytmel, aos primeiros curativos, serenou e adormeceu.Tudo tinha sido feito em silêncio, despercebidamente. Fui tranquilizar a condessa.
Eram três horas da noite. Havia tempo ral, e eu sentia quebrar o mar nas rochas da baia. Tudodormia em Clarence-Hotel. — Agora nós! — disse eu. E dirigi-me ao quarto de Cármen. Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa, desmaiada. Aoprincípio não distingui ninguém e ouvi apenas soluçar. Enfim sobre um sofá, deitada, enroscada, sepulta da, vi Cármen, com a cabeça escondida, o penteado solto, coberta desangue e abraçada a um crucifixo. Ao pé, sobre uma mesa, ha via uma garrafa de conhaque e um pequeno frasco azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Cármen levantou-se um pouco no sofá. Naquele momento a sua beleza era prodigiosa.Tinha os cabelos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador, aberto sobre o peito, deixava ver a beleza maravilhosa do seio.Confesso que não foi a ideia da vingança e do castigo que me to mou o espírito diante daquela mulher tão terrivelmente possuída da paixão. Lembraram-me as figuras trágicas da arte, Lady Macbeth e Clitemnestra, e tanta beleza, tanto esplendor, fizeram-me subir aocérebro um vapor de amores pagãos.
Ela tinha-se erguido e, com uma voz seca:- Que quer? Eu fiquei calado. — Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está aí a po lida, não? Estou pronta. É pôr um xaile. — Ninguém o sabe — disse-lhe eu baixo, e, sem saber porquê, comovido. — Que me importa? Não o oculto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! Pois quê? Nósoutras damos a nossa vida, a nossa paixão, a nos sa alma, entregamos to do o nosso ser, pomos nisto toda a nossa existência, a nossa honra, a nossa salvação na outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabelos mais louros ou a cinta mais fina, adeus tu, parasempre! Olá, criatura! Desprezo-te, tu foste para mim o momento, o capricho, a futilidade. Ah! Sim? Então que morra. Que quer mais? Vá buscar os policemen.Eu disse-lhe então, em voz baixa:
Fui encontrá-lo banhado em sangue. Ela olhou-me desvairadamente um momento, e de repente, arremessando-se sobre osofá, abraçou-se ao crucifixo e com grandes lágrimas, com um delírio de soluços:
— Ah, meu Deus, perdoai-me! Perdoai-me, Jesus! Per doai-me! Fui eu que o matei!Estou doida decerto. Pobre Rytmel! Rytmel! Rytmel da minha alma! Não o torno a ver, não lhe torno a falar! Acabou-se para sempre!... Jesus, o que eu sinto na cabe ça!... Em Calcutá adorou-me, aquele homem. Ajoelhava aos meus pés, eu queria morrer por ele. Diga-me,escute: enterraram-no? Está muito ferido? Eu não o feri no rosto? Não, isso não! Vá depressa. Vá buscar a polícia!... Mas, porque me não prendem? Ah, meu pobre Rytmel! Eu morro,eu mono, eu morro! Daqui a pouco come çam a tocar os sinos!
Ergueu-se com gestos de louca, foi ao espelho, compôs o cabe lo com ar desvairado, e de repente voltou a abraçar, apaixonadamente, o crucifixo negro.- Escute — disse-lhe eu. — Rytmel não morreu.
— Não morreu? — gritou ela. De repente, arrojou-se aos meus braços, que a ampararam, tomou-me a cabeça entre asmãos, e fitando-me com uma grande angústia.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.