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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Mas o homem continuou no mesmo tom plangente, detendo-se em pausas aflitas, a lamentar o sangue derramado, a miséria, os incêndios, as violações, até que estatelou inerte, numa sonolência mole, acordando, de repente, espantado, como estranhando achar-se entre tanta gente. Esfregou os olhos e levantou-se cansado, tornando ao seu lugar, no fundo da sala.

Sem que o chamassem, um mulato abaçanado, alto, de músculos hercúleos, ergueu-se, com um olhar de inspirado, oferecendo-se. Aceito, encaminhou-se para a mesa, impôs as mãos imensas e, d'olhos fechados, tateando, respirava com força, aos bufos, como um potro exausto. Abria, de repente, os olhos, bambaleava-se, batia pancadas secas com o pé, espalmava as mãos na mesa, com os dedos muito abertos.

A mocinha, que o não deixava com os olhos, empinou-se nervosa, suspirou e abateu na cadeira derreando a cabeça sobre o respaldar.

— Que a paz do Senhor seja convosco!... — disse gravemente o colosso com uma voz cheia que rolou tonitruosamente, seguindo-se-lhe o "Amém" de todos os presentes. E, à maneira dos profetas bíblicos que, no tempo da subversão moral do povo eleito, andavam de cidade em cidade anunciando os castigos de Iavé, começou a discorrer sobre o Bem e o Mal, mostrando que o benefício na terra é um depósito cujo lucro se recebe no céu e que o pecado é uma lepra que corrói a alma e, como se sobre ele houvesse baixado o espírito clamoroso de Isaias. as suas palavras eram fortes, lembrando as do profeta a reboavam abalando aquelas almas vibráteis.

E como a mocinha se pusesse de pé, a ímpeto, retorcendo os braços, rilhando os dentes, com um surdo, arrancado arquejo, a rebolir-se em coleios serpentinos, Dona Júlia agarrou-se à Felícia, sussurrando com medo:

— Vamo-nos embora. Isto está-me fazendo mal.

— Por que, minh'ama?

— Vamos.

— Nós agora não podemos sair. Como é que vosmecê quer passar?

— Paulo pode ter chegado.

— Vosmecê não falou com ele?

— Sim, mas não quero entrar tarde. — Agora falta pouco, minh'ama.

O mulato continuava a falar em tom soturno, repetindo versículos bíblicos. Súbito calou-se, retesando-se, com os braços rijamente fincados na cadeira, a respirar com esforço. O apóstolo acalmou-o, chamou-o e ele abriu os olhos, levantou-se estremunhado e foi caminhando para o seu lugar, ainda a tremer. Foi então chamada a mocinha.

Ao vê-la dirigir-se para a mesa, como uma vítima que seguisse para o suplício, abatida e pálida, Dona Júlia lastimou-a: "Coitadinha!" Devia ter a idade de Violante.

Que grande mágoa a arrastaria, tão moça, àquele mistério! Que consolação iria ela pedir, tão cedo, aos espíritos benfeitores? Não haveria na imensa alegria da terra bálsamos para os seus tormentos para que, tão criança, já se fosse refugiar no templo da Morte? Coitada!

Logo que se sentou, os crentes, que a conheciam e respeitavam, moveramse com interesse. Segredava-se, murmurava-se e o apóstolo pediu a todos que se concentrassem em oração a fim de que viesse em visita ao grêmio, por intermédio da irmã Clarinda, um espírito perfeito.

A mocinha, de mãos estendidas, abria e fechava os olhos — a sua respiração ralava e um convulsivo tremor sacudia-a aos arrancos. No silêncio atento e pávido da sala ouvia-se-lhe o ranger frenético dos dentes. Dobrou-se toda em arco.

Súbito, d'arranque, como se lhe houvesse passado por diante dos olhos uma visão horrível, ergueu-se hirta, com os braços duros e, de arremesso, rugindo, como em crise epilética, arrojou-se para trás caindo com a cadeira.

Homens e mulheres acudiram — levantaram-na rígida, os olhos

imensamente abertos, fitos e desvairados. O apóstolo, vendo-a naquele estado, pôsse a falar com brandura, tentando dominar o mau espírito que a possuía. Sentaramna. Parecia dormir, lívida, desfigurada, com o suor a escorrer-lhe ao longo das faces. — Como te chamas? interrogou o apóstolo.

— Não sei! rugiu abafadamente a inspirada.

— Queres guardar segredo; pois seja feita a tua vontade. Dize-nos ao menos, se na existência que deixaste foste homem ou mulher?

— Mulher!

— E conheceste a irmã em que te encarnaste?

A mocinha acenou afirmativamente com a cabeça, arfando.

— Tinhas com ela alguma ligação de parentesco?

— Não.

— De amizade?

— Sim.

— E por que a fazes sofrer tanto? — Ela não sofre.

No mesmo instante, porém, com outro arranco, rolou por terra escabujando e rugindo. O assombro tocara o auge em toda a saía — ninguém ousava aproximarse da infeliz vítima da possessão maligna. Foi o apóstolo quem se adiantou solícito, levantando-a carinhosamente e obrigando-a a sentar-se.

— Descansa... descansa um pouco. Há, talvez, aqui alguém cuja presença não te é agradável.

— Sim! — exclamou a mocinha, atirando um murro à mesa.

— Quem é?

— Não posso dizer.

— Por quê?

(continua...)

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