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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Nas horas longuíssimas do recreio, os rapazes passeavam calados, destruindo a comunhão usual dos brincos, como se temessem estragar mais alegria naquele cativeiro, certo de melhor emprego breve. Pelas paredes a carvão, pelas tábuas negras a traços brancos, arranhada na caliça, escrita a lápis ou a tinta, por todos os cantos via-se esta proclamação: Viva às férias! determinando a ansiedade geral, como um pedido, uma intimativa ao tempo que fosse menos tardo, opondo, cruel, a resistência impalpável, invencível dos minutos, dos segundos, à chegada festiva da boa data.

Bento Alves, depois de assegurar que unicamente por mim se havia sujeitado à humilhação que sofrera, andava propositalmente arredio.

Eu, solitário, ia e vinha como os outros, percorrendo o pátio, marcando a bocejos os prazos alternados de impaciência e resignação, vendo pairar por cima do recreio um papagaio que soltavam meninos da rua para as bandas do Ateneu.

Invejava-lhe a sorte, ao papagaio cabeceando alegre, ondeando a balouçar, estatelando-se no vento, pássaro caprichoso, dominando vermelho o vasto retângulo azul que as paredes cortavam no firmamento, solitário, solitário como eu, cativo também — mas ao alto e lá fora.

Relaxava-se o horário; professores faltavam; era menos rude a inspeção. Os alunos iam por toda parte à vontade. Faziam roda de palestra nos dormitórios, pilando enfastiadamente os mais duros assuntos, murmurações esmoídas, escabrosidades pulverizadas, trituradas malícias, algumas vezes malícias ingênuas se é possível, caracterizando-se no conciliábulo o azedume tagarela do cansaço podre de um ano, conforme a psicologia de cada salão.

Os dormitórios apelidavam-se poeticamente, segundo a decoração das paredes: salão pérola, o das crianças policiado por uma velha, mirrada e má, que erigira o beliscão em preceito único disciplinar, olhos mínimos, chispando, boca sumida entre o nariz e o queixo, garganta escarlate, uma população de verrugas, cabeça penugenta de gipaeto sobre um corpo de bruxa; salão azul, amarelo, verde, salão floresta, dos ramos do papel, aos quais se recolhia a classe inumerável dos médios. O salão dos grandes, independente do edifício, sobre o estudo geral, conhecia-se pela denominação amena de chalé. O chalé fazia vida em separado e misteriosa.

O policiamento dos dormitórios competia aos diversos inspetores, convenientemente distribuídos.

Na época atenuavam-se os zelos da policia. O próprio gipaeto do pérola batia as asas para a folia, uma inocente folia de noventa anos.

A palestra corria desassombrada.

Deitavam-se uns a uma cama, outros cercavam agrupados nas camas próximas e atacavam os assuntos:

No salão dos médios:

“D. Ema... D. Ema... não se murmura à toa... Reparem na maneira de falar do Crisóstomo... Tem motivo, um rapagão... Palavra que os apanhei sozinhos, juntinhos, conversando, a distancia de um beijo...”

— O melhor é que o Crisóstomo não vai para a rua... Que diabo, nem tanto vale o grego, que se pague a beijocas descontadas pela mulher... tenho para mim que o negócio ainda acaba mal e porcamente, kakós kai ruparós, com uma estralada...

— Ora, diretores! empresários! fabricantes de ciência barata e prodígios de carregação, com que empulham os papais basbaques... O que querem é a freqüência do negócio... Falam cá em anúncios... Mulher ao balcão... Que chamariz, uma carinha sedutora! Eu por mim, se fosse diretor, inaugurava um Kindergarten para taludos; uma bonita diretora à testa e quatro adjuntas amáveis... Não haveria nhonhô graúdo que não morresse pelo ensino intuitivo. Como não haviam de pagar para cortar pauzinhos no meu jardim! E que serviço ao progresso do meu pais: estimular à Froebel as inteligências perrengues e as adolescências atrasadas...

— Pois eu seria capaz de guerrear o estabelecimento. Se fosse diretor, teria o cuidado de ser também ministro do império... Revogava a Instrução Pública e aprovava a minha gente por decreto, tudo de pancada e com distinção.

— Qual! eu, se fosse diretor, seria safado! Não há nada neste mundo como ser safado! Uma bonita meninada, que festança! Os meninos gostam da gente, a gente gosta dos meninos e o colégio cresce: crescite!... Daí a pouco tanta matricula, que precisaríamos mudar de casa...

— Que canalha! Que lingüinhas... Safa! Pois eu cá só digo mal daquele tipo do Liceu. Marcelo, que tem na face a costura cicatrizada do talho que lhe fez um

discípulo em certa aventura com o mais pacífico dos utensílios, e que, ainda assim, foi apanhado no Cassino deixando aberto num divã o carnet de baile, cuidadosamente ilustrado de símbolos... pedagógicos.

(continua...)

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