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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

A jovem senhora estava emagrecendo, mas emagrecendo como quem sofre uma lesão oculta, uma doença profunda na parte mais delicada do organismo. Já era débil, naturalmente franzina, com olheiras sintomáticas de anemia, o pescoço esguio, o nariz afilado, a voz cansada, de um timbre melodioso, quase a extinguir-se, uma passividade meiga aos olhos; mas agora, tudo isso como que ia tomando uma expressão visivelmente mórbida aos olhos de toda a gente, menos aos de Evaristo, que os tinha voltados para a política e para os republicanos.

— Não me achas magra? — perguntava ela ao bacharel.

— Não, a mesma coisa... — dizia ele fitando-a. — Sempre foste magrinha.

Até que uma tarde, após o jantar, Adelaide, em conversa com Evaristo, disselhe:

— Oh! quem me dera voltar à província!

O bacharel encarou-a.

— Homessa!

— É o que te estou dizendo...

— Então já aborreceste o Rio?

— Já.

— Pois admira... Inda não há muito tempo falavas com entusiasmo na Rua do Ouvidor e nos bailes do Cassino...

— É verdade, mas.

— Mudaste de idéia como o Valdevino Manhães de política...

— Isso mesmo. Há dias que penso doutra forma. O Rio de Janeiro é essencialmente egoísta e eu não me coaduno com a vida que temos vivido nele... De repente apoderou-se do meu espírito uma nostalgia, uma tristeza mesclada de apreensões e de desânimo... um aborrecimento das coisas que me cercam... Prefiro viver só, bem longe desta sociedade... lá no fundo da minha província, em Coqueiros, como outrora...

— Estás eloqüente! — exclamou Evaristo, interrompendo a esposa.

E logo:

— Mas vem cá: desfeitearam-te? trataram-te com menos polidez?

— Nada... todos me tratam muitíssimo bem... D. Branca é um anjo... o Sr. Furtado um cavalheiro irrepreensível... todos, enfim, com quem nos damos, são umas belas pessoas...

— E então, filha? Dir-se-ia que tens lido os romances de Georges Ohnet ou os folhetins de Montepin... Se a questão é de casa, se não estás contente aqui mudemo-nos: sempre foi este o meu desejo.

Debruçados ambos no peitoril da janela, iam assim confidenciando baixo, àquela hora crepuscular, frente para a perspectiva sombria das montanhas que se recostavam numa mudez piramidal e tenebrosa, como dorsos de dromedários fugindo nos longes de um deserto...

Havia pausas curtas no diálogo.

O cemitério dava uma nota ainda mais triste à paisagem, àquele recôncavo da natureza, cuja melancolia tinha o sainete fúnebre da morte...

O céu, porém, o grande céu, numa impassibilidade mística, sem a dobra ou a franja de uma nuvem, sem o brilho de uma estrela precursora, vazio e desolado, era como a retratação simbólica do Nirvana oriental para onde correm as almas dos eleitos de Buda... — misterioso, inexpressivo e assim mesmo belo!

Uma claridade argentina e deliqüescente, qual o reflexo para o alto de uma cidade iluminada, emergiu como os pródromos de uma aurora boreal, no liso descampado que o sol ia deixando.

— Olha aquilo! — exclamou o bacharel, tocando no ombro de Adelaide.

Ela volveu o rosto à esquerda, para o lugar indicado, e, sem se aperceber de que já era noitinha, viu o medalhão esbraseado da lua no nascente, carregando toda a tristeza dos desiludidos, toda a inconsolável amargura dos infelizes, cujo olhar se embebera nele desde o princípio do mundo.

E a esposa de Evaristo não teve uma palavra de admiração, um movimento de surpresa: disse simplesmente, quase inconscientemente:

— É a lua...

E, com a face na mão, esperou que o astro bendito dos poetas lhe trouxesse algum remédio às dores, que eram muitas e profundas... Mas Evaristo continuou, distraindo-a:

— Tu estás nervosa, Adelaide, isso é nervoso, a moléstia da moda... Vamos procurar casa, que é o verdadeiro...

— Não, não! — interrompeu ela com um arzinho de amuo. — Daqui, de

Botafogo, para a província... para outro lugar... fora do Rio de Janeiro.

— Com efeito! Muito ódio tens tu ao Rio de Janeiro!

— Dizes bem: muito ódio...

— Queres, então, decididamente, voltar à doce vidinha de Coqueiros! Pois olha, não te gabo o gosto. O Rio de Janeiro sem o imperador e sem os preconceitos da monarquia, o Rio de Janeiro tal qual sonham os bons republicanos, há de ser uma coisa única! Palavra de honra como eu não desejava abandonar esta terra, enquanto não visse um homem do povo governando o Brasil!

— De forma que, se os médicos me aconselhassem uma retirada...

— Isso é outro caso, filha; a saúde em primeiro lugar. Mas não me consta que estejas tão doente assim...

— Pois estou... estou muito doente, muito apreensiva, muito nervosa... já não acho encanto em coisíssima alguma... Vem-me uma vontade de chorar, uma tristeza no coração...

Evaristo imaginou logo que se tratava de um primeiro filho. Oh, o seu ideal doméstico: um filho! Ouvira falar nos múltiplos sintomas da gravidez, nas primeiras manifestações desse estado... e o nervoso de Adelaide, aquela tristeza, aquela morbidez, não o enganavam...

Era pai.

(continua...)

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