Por Adolfo Caminha (1893)
A saleta de jantar resplandecia à luz dos dois castiçais de vidro com mangas em forma de sino, colocados nas extremidades da mesa. A um canto, sobre uma mesinha de pinho, uma bateria de garrafas de cerveja desafiava a ganância dos convidados. Houve um assalto à mesa. Todos acercaram-se dela com a avidez de gastrônomos, e, antes que os noivos tomassem assento à cabeceira, já havia alguém sentado no extremo oposto. O Castrinho não pôde reprimir um — oh! de indignação, que felizmente passou despercebido. “— Sentem-se, sentem-se”, ordenava a viúva, inquieta como uma barata à volta da mesa, indicando as cadeiras. Todos se sentaram com ruído, acotovelando-se. Ao lado dos noivos os padrinhos, Carvalho & Cia e a esposa tinham o ar modesto de quem se vê cercado de honras imerecidas. O Castrinho, que não faltava a festa alguma dessa ordem, sentou-se ao centro com uma comoção visível no olhar agitado.
Os curiosos da rua tinham invadido o corredor e assistiam em pé, ao redor da mesa, àquela cena banal, de doze pessoas que comiam bolo à guisa de pirão de farinha; ao todo eram quatorze, mas o Loureiro e a Lídia, por um escrúpulo malentendido, apenas provaram o delicioso manjar e cruzaram o talher.
O Castrinho não se fez demorar muito. Quando menos se esperava, ei-lo de pé empunhando o cálice.
— Silêncio, silêncio! advertiu uma voz.
O poeta das Flores Agrestes pigarreou solenemente abrangendo com um olhar vitorioso toda a saleta, e enfiando a mão direita no bolso da calça, com um grande ar de tribuno acostumado a falar às massas, começou:
— Meus senhores e minhas senhoras.
Fez-se um silêncio grave e recolhido, em que destacava apenas, muito de leve, o ruído dos talheres que continuaram a funcionar ativamente.
— Eu faltaria ao mais sagrado dos deveres...
Uma voz: — Não apoiado.
— ...Se neste momento solene, em que toda a natureza veste-se de galas para receber em seu vastíssimo seio os noivos presentes... eu, o mais humilde amigo desta casa...
— Não apoiado...
— ...Não erguesse a minha fraca voz para... para saudar... para saudar o himeneu destas duas criaturas (apontando para os noivos) nascidas “no mesmo galho, da mesma gota de orvalho”... como diria o nosso Casimiro de Abreu...
— Bravo! murmurou o mesmo apartista dos não apoiado numa voz cava, com a boca cheia.
O orador, visivelmente inquieto, sem tirar a mão de dentro do bolso, endireitou a gravata com pancadinhas suaves, e, mergulhando o olhar na fruteira, continuou:
— Sim, meus senhores... e minhas senhoras, o casamento é a base de toda sociedade civilizada; o casamento, como dizia certo escritor, cujo nome não vem ao caso citar... o casamento é a mais nobre de todas as instituições, e o homem que se casa dá um passo para o infinito, isto é, para Deus!...
Uma salva de palmas cobriu as palavras do Castrinho, que agradeceu comovido. No peito de sua camisa, muito alva e lustrosa, reluzia uma pedra duvidosa.
Crescia a animação da festa. Os talheres batiam nos pratos com mais força e as palavras do liceísta comunicavam ao auditório certo entusiasmo sereno que se traduzia em apetite voraz e insaciável secura nas gargantas. Ouviam-se trabalharem as mandíbulas.
Houve uma pausa depois da qual o Castrinho, tomando o cálice cheio, concluiu com ênfase:
— ...Portanto, eu brindo ao ditoso par, desejando-lhe um futuro de rosas banhado pelos eflúvios do amor conjugal...
E, escorropichando o cálice:
— Aos noivos!
— Hip, hip, hurra!
Todos se levantaram.
— Loureiro...
— D. Lídia...
— Sr. Castro não quer se servir de um pedacinho de bolo de mandioca?
ofereceu a viúva por trás do poeta.
— Agradecido, minha senhora, agradecido... Estou satisfeito. — Então, mais um pouco de vinho...
Aceitava, pois não.
— Não façam cerimônia, minha gente, observou D. Amanda. Já acabou, Sr. João da Mata? Um pinguinho de doce de caju, Sr. Alferes... E você, menina, coma sem cerimônia.
Maria do Carmo não podia disfarçar a tristeza, a ponta de inveja concentrada que lhe tomava de assalto a alma inteira. Sentara-se à mesa por civilidade, para corresponder aos reclamos da viúva, mas o seu único desejo era ir-se embora para casa; a festa da amiga fazia-lhe mal aos nervos, e, demais, o Zuza proibia-lhe de ir a qualquer parte onde ele não estivesse. Fora ao casamento da Lídia, porque o padrinho a obrigara, não por sua espontaneidade. E agora ali estava casmurra, silenciosa, com um arzinho recolhido de filha de Maria, vendo sem ver, ouvindo sem ouvir as pessoas e os ruídos, numa abstração infinita, no meio de toda aquela gente que festejava o casamento da amiga. Agora, mais do que nunca, por um excesso de sensibilidade nervosa, doía-lhe no coração de pomba desolada não poder, como a Lídia e como outras tantas raparigas felizes, amar livremente, sem ter que obedecer aos caprichos de um padrinho atrabiliário e despótico como João da Mata. Enquanto os outros divertiam-se sorvendo cálices de vinho, saudando aos noivos, ela, toda entregue a seus pensamentos, permanecia muda e bisonha como quando pela primeira vez apresentara-se à sociedade, logo ao chegar de Campo Alegre, menina ainda, matutinha. Ah! naquele tempo ela tinha o seu papai e a sua mamãe perto de si, não era como agora, anos depois, uma simples, uma pobre, uma desprezada órfã, assistindo com uma grande tristeza egoísta derramada nalma à felicidade alheia triunfante...
— Atenção, meus senhores! Atenção!
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.