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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

E acrescentou, como para desculpar-se daquela lamentação que a preguiça lhe arrancara:

— A Chica nada tem que a impeça de vir à vila e a obrigue a confessar-se com tanta urgência. É uma alma simples, gosta de confessar-se todas as semanas, coitada!

E depois, com um largo bocejo, retalhado de cruzes sobre a boca:

— Aposto que padre José não se dava a estas maçadas!

Padre José era padre José, e S. Rev.ma é padre Antônio de Morais, redargüiu Macário com leve impaciência. Também o defunto vigário cantava e dançava lundus e S. Rev.ma não o fazia. Padre José mandava presentinhos às moças, passava os dias aos lagos, ao tempo das salgas, o dinheiro não lhe chegava, porque tinha às três e quatro por sua conta, era uma bandalheira! Ao passo que S. Rev.ma era conhecido como um sacerdote exemplar e o próprio Chico Fidêncio não o negava, posto tivesse o arrojo de dizer que aquilo era manha ou acanhamento de padre novo, que passaria com a idade. Um patife aquele Chico Fidêncio, uma pedra de escândalo para a população, ateu, desbocado, mal-dizente e amancebado!. Era o causador de todos os males da vila, o autor de todas as desgraças, o enredador-mor de todas as tramas e intrigas, aquele excomungado Chico Fidêncio! Por causa dele brigara o Valadão com o Bernardino Santana, a fogo e sangue. Ele instigara o Totônio a desobedecer ao pai, que o queria mandar para o Liceu, a teimar em casarse com a sobrinha do Neves. O Manduquinha Barata e o Pedrinho Sousa estavam perdidos por culpa dele. Levantara a oposição ao confessionário, impelira o povo a fugir para os castanhais, desamparando a vila e fazendo ouvidos de mercador às prédicas de S. Rev.ma. Era um patife! Era pena, realmente, que um homem tão instruído fosse tão perverso, mas enfim em algumas coisas, forçoso era confessá-lo, o Chico Fidêncio tinha razão e as suas correspondências diziam a verdade, por exemplo, quando falava das bandalheiras do defunto padre José, que Deus houvesse.

— Enfim, terminou Macário, padre José está dando conta do que fez e a velha Chica esperando que V. Rev.ma a vá confessar. Levante-se V.Rev.ma, que o estou desconhecendo hoje, e faça a caridade que lhe pede a pobre da velha, para que morra em paz com Deus.

Padre Antônio, levantando-se de súbito, como se tivesse acabado de tomar uma resolução longamente meditada, fixou a vista no rosto do sacristão:

— Sabes que estou decidido a fazer uma missão ao porto dos Mundurucus?

— Nos mundurucus! exclamou Macário, atordoado com a inesperada revelação. Nos mundurucus! repetiu com pasmo. Mas saberá V. Rev.ma que nos mundurucus não há alma cristã?

Sabia-o perfeitamente, e fora por isso mesmo que formara aquela resolução. Desejava ir ao porto dos Mundurucus, converter os selvagens, trazê-los ao seio da religião católica, e ao mesmo tempo libertar o Amazonas dessa terrível praga de índios bravos que lhe entorpecia o progresso.

Macário não acreditava, pensava que S. Rev.ma estava brincando, queria caçoar com ele para o castigar de o ter acordado tão cedo por causa da velha Chica. Afinal, pensava, ir à casa da velha não era o mesmo que ir ao porto dos Mundurucus, ao centro da Mundurucânia. A Chica não comia gente, e os índios, ficasse S. Rev.ma sabendo, eram antropófagos, como dizia o professor Aníbal, pelavam-se por carne branca. S. Rev.ma não lhe levasse a mal a insistência com que lhe falava na pobre velha da beira do lago, uma cristã que não se podia comparar com aqueles inimigos de Deus que matam e esfolam uma criatura do Senhor por dá cá aquela palha.

(continua...)

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