Por Aluísio Azevedo (1895)
Bem ouvi ainda resmungar meu genro com a mulher. Queixava-se de mim, naturalmente. Compreendi que nesse momento estava sendo amaldiçoada por ele, mas sentia-me radiante, porque tinha ampla convicção de que minha filha, apesar de casada havia já quase dois anos, ia ser feliz, muito feliz, nos braços do esposo.
Recolhida, depois da minha habitual oração, em que pedia a Deus
continuasse a dar-nos, a ela a felicidade e a mim forças para poder zelar por esta, deitei-me e adormeci, com a alma nadando em júbilo.
Tinha eu conseguido boa parte do meu ideal. À custa daqueles dúbios enfados e arrufos passageiros, a grande ilusão do amor instinto, a deliciosa quimera da felicidade sensual, mantinha-se equilibrada, sem cair por terra como desalada mentira, nem perder-se no vago como desvairado sonho.
Mas, dentro em pouco, uma grande ocorrência vinha alterar nossa vida, tão custosamente bem feita, e revolucionar-nos a casa, abrindo entre minha filha e meu genro uma cena cruel, cena de lágrimas e soluços, agora verdadeiros, de verdadeira dor.
CAPÍTULO XIX
Manifestaram-se em Palmira os sintomas de gravidez. Isto, que em outra família seria motivos de regozijo, lá conosco foi razão de sérias lutas por mim travadas contra meu genro e minha filha.
Declarei logo que ela, desde esse dia, deixava de coabitar com o marido, e que este seguiria no primeiro paquete a sair para a Europa, ou partiríamos nós duas. Se ele fosse, todas as despesas da sua viagem correriam por minha conta, mas Leandro só tornaria a ver a mulher, quando esta pudesse apresentar-lhe nos braços o filhinho, já dignamente livre dos cueiros e das cuecas, todo enfeitado, coberto de rendas e fitas e cheirando como um botão de rosa.
Uma bomba de dinamite não causaria maior explosão do que este meu decreto. Foi fulminante: minha filha quase perde os sentidos ao recebê-lo; meu genro, que acabava de almoçar conosco, enterrou o chapéu na cabeça e desgalgou de casa como um raio, exclamando que fugia — para não fazer ali mesmo uma loucura.
Eu, porém, estava resolvida a não ceder um passo. E não cedi.
Em vão minha filha recorreu a todos os modos da súplica; em vão chorou e jurou que morreria se tivesse o filho longe de Leandro; em vão ameaçou-me de que seria capaz de um infanticídio para não sofrer aquela minha exigência — assim tão dura, tão desumana e tão ridícula.
— Nunca pensei, mamãe, disse-me ela, que a senhora levasse tão longa a sua mania de separar-me de meu marido! Nem parece que vosmecê é mãe e já esteve grávida, porque então devia saber que uma mulher, quando está neste estado e tem de dar à luz, o primeiro filho principalmente, quem mais deseja perto de si é o esposo!...
— É justamente porque já estive grávida; é porque te dei à luz; é porque sou mãe; e é porque também fiz grande questão em que teu pai acompanhasse todo o período da minha gravidez, e assistisse, do começo ao fim, o parto donde nasceste — que agora não consinto, por forma nenhuma, suceda contigo a mesma coisa! Sei o que faço, minha filha! E, desde já, previne teu marido de que, se opuser às minhas determinações, não conte ele comigo para mais nada, a não ser perseguição e vingança!
Desta vez não fui pedir à Bíblia o outro versículo do Levítico, em que o Senhor, muito expressamente, dá a Moisés e Aarão, para que a transmitam aos filho de Israel, a lei especial do afastamento durante o nojo da parturição e da prenhez. Já me não animava a citar a Bíblia; tal firmeza mostrei porém na minha vontade, que meu genro compreendeu a inutilidade de abrir luta, a não ser com um rompimento completo e brusco.
O pobre rapaz ficou aflito, bem o vi, e na realidade causava-me pena. Parecia ter perdido a cabeça; não se animava a romper comigo por uma vez, nem se queria resignar tampouco à minha inflexível ditadura de sogra; não que o preocupasse a sua declaração escrita, creio eu, mas porque um rompimento comigo seria a sua desgraça comercial, ou pelo menos violento golpe dardejado na sua nova carreira até aí tão próspera.
Reconheci que desta vez o sacrifício imposto ao coração de ambos era, com efeito, muito mais sério que das outras, e por isso procurei suavizá-lo não m agastando com as impertinências dele, nem com os ressentimentos de minha filha. A tudo resisti serenamente, e, com boas palavras e maneiras calmas, fiz ver a meu genro que ao lado de sua mulher — ficava eu; e ao lado da enferma — ficava um bom médico, que era o Dr. César.
Ele pois que embarcasse tranqüilo e confiante; a competência profissional do meu velho amigo e os meus desvelos de mãe não deixariam sentir a nossa Palmira a falta dos seus cuidados.
Leandro começou daí por diante a evitar a minha presença; a falar-me secamente e o menos que podia; começou a não me tratar senão por “Minha sogra”, dando a esta palavra uma expressão tão agressiva e tão dura, que por fim já me doía e magoava bem cruelmente.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.