Por Franklin Távora (1879)
— Nem virá tão cedo.
— Demora-se muito?
— Só estará aqui por volta das duas horas.
— Mas isto não acontece todos os dias - advertiu Martins.
— Todos os dias - tornou Jacinto.
— Até agora, quero dizer, há três meses atrás não era assim. Nunca deixei e encontrá-lo no escritório depois das nove e meia.
— Já lá se foi esse tempo. Agora, o doutor vive mais para as atrizes e os espetáculos que para as partes e os autos,
Martins, bom amigo, não quis alentar o diálogo sobre assunto tão escabroso. Demais, ele nada ignorava do que lhe dizia o ajudante, ou antes o servente de Ângelo. O Jacinto, porém, que tinha o vezo de dar com a língua nos dentes, prosseguiu sem se importar com a reserva de Martins.
— Isto não vai bem. O doutor não despacha os autos, e não ouve as poucas partes que ainda o procuram. Se o senhor se demorar algum tempo, há de ver protocolistas virem buscar os papéis retardados, e voltarem ainda desta vez sem eles. O doutor está precisando de conselhos. Se o senhor é seu amigo, não deixe de dá-los.
— Voltarei às duas horas - tornou Martins. Se, na minha ausência, Ângelo aparecer, diga-lhe que espere por mim.
— Não tenha susto. O senhor há de vir e de esperar ainda por ele.
Martins desceu, sentindo longes de tristeza na alma. Era um homem que devia ao menos gratidão a Ângelo que fazia dele tão boas ausências.
No pé da escada um oficial de justiça estava conversando com um procurador de causas. O primeiro dizia que Ângelo lhe devia ainda uma dezena de intimações atrasadas; o segundo viera cobrar o restante de um débito, proveniente de trabalhos que o jovem bacharel o encarregara fora da cidade. O procurador dizia ao oficial:
— O dinheiro que o homem apanha é pouco para comédias, presentes, passeio a carro e outras loucuras.
O oficial respondeu ao procurador:
— Um dia destes tive em minhas mãos um requerimento chamando-o a
conciliação por trezentos mil-réis que ele deve ao Pereira, que tem loja de fazendas na Rua do Queimado. Não quis encarregar-me da citação para o doutor não dizer que, se ele não me devesse, eu não me animaria a citá-lo.
Ainda quando Martins não formasse do estado de Ângelo o juízo mais aproximado, estes esboços feitos a carvão, como os desenhos obscenos dos moleques nas paredes, foram mais que bastantes para que de tal estado não lhe restasse a menor dúvida.
E, dando o devido desconto ao que ouvira, encaminhou-se para o ponto onde exercia a sua indústria, e aí se deixou ficar até às duas horas; trinta minutos depois, entrou novamente no escritório.
— Estás mal comigo, Ângelo? — perguntou ao entrar.
— É a mim que me cabe fazer-te esta pergunta.
— Estive ontem à noite em tua casa. Tinhas ido ao teatro. Tomei chá com tua mãe e tuas tias. Vi teus irmãos. Um deles pareceu-me estar já perdendo ao ano.
— Conheces algum mestre brando, benévolo e paciente? Não quero expor meus irmãos ao desamor de certos professores que tornam odioso aos meninos o mister de aprender.
— Tenho um primo que é um professor exemplar. Falar-lhe-ei amanhã. sobre a entrada de teu irmão na sua escola; e, na semana vindoura, pode o menino começar o trabalho. Mas - mudando de assunto - qual a razão do teu afastamento de minha casa. Lá ninguém tem ofendeu.
— Não tenho aparecido por estar muito sobrecarregado com trabalhos; — Forenses?
— Na maior parte.
— Queria-me parecer, ao entrar aqui, o contrário do que estás dizendo. Há três para quatro meses que não venho ao teu escritório, e em tão curto espaço de tempo noto agora grande diferença. Então, via-se o escritório ordinariamente cheio de clientes; hoje, vejo-o deserto. Somos três os que estão aqui - eu, tu, e ali o Sr. Jacinto, matando moscas. Como vais com o teu jornal.
— Agoniza. Muitos dos assinantes não renovaram as assinaturas e ver-me-ei na contingência, se não entrarem novos que compensem os que não tornaram, de suspender a publicação.
— Deves à tipografia?
— Estou num pequeno atraso.
— Entretanto, há quatro meses era próspero o estado do jornal. Não se deverá atribuir o resfriamento dos assinantes à publicação quase exaustiva de traduções e transcrições, em vez de artigos originais, em que até certo tempo te mostraste tão fecundo?
— Talvez. De fato, não tenho tido tempo de escrever como já escrevi. Ando a modo de preocupado.
— Andas; e é sobre isto que venho tomar-te alguns minutos. — Senta-te aqui.
Ângelo e Martins encaminharam-se para um gabinete curto e estreito, que corria paralelo à sala, onde aquele tinha a sua mesa e estantes. Ângelo recostou-se sobre um sofazinho de vime, que com duas cadeiras de braços adornavam o pequeno aposento. Martins sentou-se em uma das cadeiras, e começou assim:
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.