Por Franklin Távora (1878)
- Pois bem, tornou o negociante. É da máxima conveniência que de hoje para amanhã reunas todos eles e à sua frente trates de hostilizar por todos os meios imagináveis, não só o pé-rapado a quem queres quebrar os dentes, mas tantos pés-rapados e mazombos quantos puderem cair em tuas mãos. Já deves saber o que resolveram os nossos patrícios e amigos do Recife... - Tudo sei.
É de nossa honra e de nosso interesse que o grito que eles soltaram na vila, acha eco em todos os pontos importantes da província, especialmente em Goiana.
- E o governo está de nossa parte?
O governo! O governador, o legitimo, o verdadeiro governador de Pernambuco, Sebastião de Castro Caldas, este está conosco. D. Manoel é simplesmente o governador da rebeldia. Deu força aos insurgentes, e está exercendo atribuições que lhe não competem. Os que o sustentam e por eles são sustentados, tão criminosos são como ele. opuseram-se à criação da vila, o que quer dizer que se opuseram à vontade e à ordem de el-rei; tentaram contra a vida do legitimo governador, e o obrigaram a refugiar-se na Baia para escapar à morte; na ausência dele, tomaram conta do poder tumultuaria e revolucionariamente; o bispo por infame covardia ou por indigna conivência, assumiu as rédeas do governo e expediu perdão aos rebeldes e assassinos. Devíamos nós, leais vassalos de el-rei, ter por justo e legal o infame perdão, quando as justiças do céu e da terra exigiam antes as cabeças dos rebeldes? Não, mil vezes não. Acumulamos viveres, ajuntamos dinheiro para que nos não faltasse nada na ocasião do desforço. Julgando os nossos amigos do Recife chegada esta ocasião, acabam de soltar o brado em favor da restauração da autoridade legal, vil e traiçoeiramente conspurcada pelos que se apelidam nobres, quando outra coisa não são senão rebeldes e sicários. Assim, todo leal português tem o dever de lançar mão das armas para derrubar o governo de d. Manoel e levantar novamente o de Castro Caldas. Em favor desta empresa patriótica e gloriosa é que te proponho reunas todos os amigos que puderes. O programa da luta é largo, mas resume-se nisto – destruir, seja por que meio for, qualquer força, qualquer bem, até a própria vida de todos os fidalgos de Pernambuco.
- Tudo de que precisares, a saber, dinheiro, viveres, apoio, proteção ilimitada para ti e para os teus, a fim de se preencher este plano salvador das nossas fortunas, das nossas vidas e do nome português, ser-te-há prontamente dado ou feito, contanto que a represália não fique nem por um instante retardada. Posso confiar em ti e nos teus, Manoel Gonçalves? Concluiu Antonio Coelho com gestos e expressão de quem estava de corpo e alma entregue a este pensamento e por levá-lo a efeito subiria a todas as eminências e desceria a todos os abismos.
Antonio Coelho era de boa estatura. Tinha os cabelos pretos e corridos, os olhos rasgados e úmidos. Espadaúdo e anafado, dir-se-ia que esse homem, uma vez sentado, não poderia levantar-se senão com auxilio de outrem. Nada entretanto encontraria mais a verdade. posto que maciço de formas, era pronto nos movimentos. Sua agilidade tinha o quer que fosse da eletricidade. Em seu semblante estavam esparzidos os toques de uma expressão particular que o tornavam atrativo. Usava a palavra com veemência e mobilidade que interpretavam brilhantemente os caprichosos raptos e oscilações de seu espirito, umas vezes lento e tardo nas operações, outras franco e arrebatado até a inconveniência e a temeridade.
- Há então viveres e dinheiro bastante para serem distribuídos pela gente que eu ajuntar? Inquiriu o peixeiro, como quem não queria ainda acreditar na formal promessa que acabava de fazer-lhe o negociante.
- Há tudo de que precisares para as mais arriscadas e custosas arremetidas contra a nobreza, disse a com segurança Antonio Coelho, qual se fizesse um juramento solene. Além disso, acrescentou como por demais, o saque entrará por muito na ordem dos meios de suprir qualquer falta que se não tenha podido prever.
- Eu quero ser franco a vosmecê. Tenho já comigo, não de hoje, mas de há muito, vinte camaradas valentes e decididos. Se me autoriza a aumentar o número, dentro de pouco tempo terei uma companhia organizada. Autorizo-te a organizares um batalhão. Pagarei a todos o soldo, e a ti aquele que costumam vencer os coronéis.
- Muito bem, respondeu o Tunda-Cumbe. Pode contar comigo. De hoje a oito dias teremos gente para tomar Goiana.
- - Trata-se, não de tomar Goiana, que nossa é, mas de ir em socorro dos nossos amigos do Recife, que estão ameaçados de um rigoroso sitio, posto pelos rebeldes de Olinda e das vilas mais próximas. Pois sim; é para o que quiser. Sou pau para toda obra.
- Fica pois assentado que de hoje em diante andaremos de acordo nesta grande obra. Sim, senhor. Está decidido.
- Em cado de necessidade, por quem poderia mandar chamar-te?
- Por Lauriano.
- Podemos confiar nele?
É um negro interesseiro, que odeia muito os nobres, porque de um deles foi escravo e provou muito bacalhão. Ele sabe onde há de procurar-me, nos dias em que não costumo vir à vila.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.