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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Ou antes era como a fogueira, cujas chamas uma chuva glacial havia apagado, ficando intactos todos os materiais, que já secos e quase calcinados, esperam apenas o contato de uma centelha para de novo se inflamarem com fúria irresistível. A vista de Margarida resplandecente de beleza e dos mais voluptuosos encantos do corpo, a certeza de sua fidelidade, aquele ligeiro roçar de lábios, filtro fatal, que lhe coou nas veias o delicioso veneno da voluptuosidade, foram centelhas vivas, que em um momento puseram em horrível conflagração a paixão ardente, há tanto adormecida. Uma nova tormenta mais pavorosa que as precedentes ameaçava fazer soçobrar a virtude do jovem cenobita, levando de rojo o frágil dique a tanto custo erguido pelo ascetismo na solidão do claustro.

Não era já um reflexo da pura afeição da infância, desse sereno amanhecer do amor envolto nos véus cândidos da inocência. Não era também a paixão juvenil com suas recordações saudosas, com seus sonhos dourados e ardentes aspirações de felicidade. Era tudo isso, e mais alguma coisa ainda. Eram os instintos sensuais longo tempo sopitados, que em uma organização vivaz e vigorosa despertavam com império irresistível. Era uma sede voraz de gozos e volúpias, era uma febre, era um delírio. O demônio da luxúria acendera nas chamas do inferno seu facho furibundo e com ele se aprazia em requeimar o sangue do mísero sacerdote.

Entrando em casa, Eugênio não quis ver pessoa alguma a fim de esconder a perturbação que o agitava, e como a noite já ia avançada, recolheu-se sozinho ao seu aposento.

A noite passou-a entregue às mais horríveis tribulações. Ora rezando com fervor, pedia aos céus forças para afrontar o embate da terrível tentação, que o assaltava, ora desalentado entregando-se ao delírio da paixão, chorava, rugia, blasfemava.

No dia seguinte perguntando-lhe seu pai quem era, e como ia a pessoa a quem tinha ido confessar, respondeu laconicamente:

— É uma rapariga que não conheço... não está em perigo. A moléstia dela parece-me mais cisma que outra coisa.

Como seus pais reparassem e começassem a se inquietar com a palidez e extrema excitação nervosa em que o viam, para subtrair-se a seus olhares e perguntas, apenas acabou de almoçar mal e rapidamente saiu a pretexto de dar um passeio e ver algumas pessoas conhecidas.

— O padre está muito incomodado — disse a senhora Antunes a seu marido, logo que Eugênio se retirou. — Ele sofre alguma coisa que não nos quer dizer... queira Deus!...

— Queira Deus o quê, senhora!

— A serpente, senhor!... a serpente!...

— Ora, senhora!... deixe-se dessas alusões... pois um homem, um padre... um missionário.... nem sempre a gente é criança.

— Queira Deus!... queira Deus!... — murmurou a mãe levantando-se da mesa e rezando.

O padre durante a noite tinha feito firme propósito de não voltar mais à casa de Margarida apesar da promessa, que havia feito. Antes faltar a uma simples promessa, do que expor-se ao perigo de quebrar um voto, e perder sua alma. Portanto ao sair de casa dirigiu-se para o lado oposto ao bairro, em que ela morava. No fim de contas porém, depois de ter percorrido muitas ruas e parado em muitas casas, fosse por uma fatal casualidade, ou porque o coração, mesmo sem que ele o sentisse, o ia arrastando, achou-se nas vizinhanças da habitação, de que fugia. Ao avistá-la o coração bateu-lhe uma fatal pancada.

— Ah, Margarida!... pobrezinha! quem te há de valer!... sabe Deus, se estás agonizando e vais morrer sem confissão!... é meu dever lá ir... que posso recear de uma moribunda?... é uma desumanidade, uma pusilanimidade abominável deixá-la morrer ao desamparo... o vigário não está... que remédio tenho senão socorrê-la?... ah! e quem sabe, se já não será tarde!

Pensando assim o padre se encaminhava ora vagaroso e irresoluto, ora a passos precipitados, para a casa de Margarida.

E assim, que o passarinho pousado na grimpa da árvore fascinado pela serpente, que enroscada no tronco fita nele os olhos peçonhentos, hirto de pavor e soltando pios lastimosos vem descendo do ramo em ramo até meter-se na garganta escancarada do hediondo réptil.

Margarida, depois que Eugênio saíra na véspera, havia adormecido embalada em um delírio de felicidade, e graças a esse sono reparador amanhecera melhor, se bem que um tanto descorada e abatida. Isto mesmo denotava, que o sangue lhe corria mais calmo e regular pelas artérias. Sentia-se tão aliviada, que parecia-lhe ter voltado ao gozo de perfeita saúde.

Levantou-se alegre e tranqüila, penteou seus negros e compridos cabelos, plantou entre eles um botão de rosa, seu enfeite favorito, e vestiu-se com certo esmero e faceirice, como noiva, que se prepara para ser conduzida ao altar... não, como vítima, que se adorna para o sacrifício. Mesmo abatida como se achava, estava fascinante de beleza. Tinha nos olhos uma luz tão lânguida e quebrada, na boca uma expressão tão voluptuosa, as faces um tanto desbotadas tinham um matiz de jambo tão suave e delicado, e o colo e os braços acetinados eram de tão fresca e mimosa morbidez, que a custo se acreditaria, que aquela moça estava precisada dos socorros extremos da religião.

Quando Eugênio entrou, Margarida estava recostada ao travesseiro. O padre sobressaltou-se vendo-a tão fresca e tranqüila, e tão faceiramente vestida.

(continua...)

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