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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Na cidade do Salvador e seu termo há muitos moradores ricos de fazendas de raiz, peças de prata e ouro, jaezes de cavalos e alfaias de casa, entanto que há muitos homens que têm dois e três mil cruzados em jóias de ouro e prata lavrada. Há na Bahia mais de cem moradores que têm cada ano de mil cruzados até cinco mil de renda, e outros que têm mais, cujas fazendas valem vinte mil até cincoenta e sessenta mil cruzados, e davan-tagens, os quais tratam suas pessoas mui honradamente, com muitos cavalos, criados e escravos, e com vestidos demasiados, especialmente as mulheres, porque não vestem senão sedas, por a terra não ser fria, no que fazem grandes despesas, mormente entre a gente de menor condição; porque qualquer peão anda com calções e gibão de cetim ou damasco, e trazem as mulheres com vasquinhas e gibões do mesmo, os quais, como têm qualquer possibilidade, têm suas casas mui bem concertadas e na sua mesa serviço de prata, e trazem suas mulheres mui bem ataviadas de jóias de ouro.

Tem esta cidade catorze peças de artilharia grossa, e quarenta, pouco mais ou menos, de artilharia miúda; a artilharia grossa está assentada nas estâncias atrás declaradas, e em outra que está na ponta do Padrão para defender a entrada da barra aos navios dos corsários, se a cometerem, donde não lhe podem fazer mais dano que afastá-los da carreira, para que não possam tomar o porto do primeiro bordo, porque é a barra muito grande e podem afastar as naus que quiserem, sem lhes a artilharia fazer nojo.

C A P Í T U L O XIV

Que trata de como se pode defender a Bahia com mais facilidade.

Não parece despropósito dizer neste lugar, que tem el-rei nosso senhor obrigação de, com muita instância, mandar acudir ao desamparo em que esta cidade está, mandando-a cercar de muros e fortificar, como convém ao seu serviço e segurança dos moradores dela; porque está arriscada a ser saqueada de quatro corsários, que a forem cometer, por ser a gente espalhada por fora, e a da cidade não ter onde se possa defender, até que a gente das fazendas e engenhos a possa vir socorrer. Mas, enquanto não for cercada, não tem remédio mais fácil para se poder defender dos corsários que na baía entrarem, que pelo mar com quatro galeotas que com pouca despesa se podem fazer, e estarem sempre armadas; à sombra das quais podem pelejar muitas barcas dos engenhos, e outros barcos, em que se pode cavalgar artilharia, para poderem pelejar; e esta armada se pode favorecer com as naus do reino, que de contínuo estão no porto oito e dez, e daqui para cima até quinze e vinte, que estão tomando carga de açúcar e algodão, nas quais se pode meter gente da terra a defender, e alguma artilharia com que ofender aos contrários, os quais, se não levarem a cidade do primeiro encontro, não a entram depois, porque pode ser socorrida por mar e por terra de muita gente portuguesa até a quantia de dois mil homens, de entre os quais podem sair dez mil escravos de peleja a saber: quatro mil pretos da Guiné, e seis mil índios da terra, mui bons flecheiros, que juntos com a gente da cidade, se fará mui arrazoado exército, com o qual corpo de gente, sendo bem caudilhada, se pode fazer muito dano a muitos homens de armas, que saírem em terras aonde se hão de achar mui embaraçados e pelejados por entre o mato, que é mui cego, e ser-lhes-á forçado recolher-se com muita pressa, o que Deus não permita que aconteça, pelo desapercebimento que esta cidade tem; do que sabem à certeza os ingleses, que a ela foram já, de onde podem tirar grande prêsa, da maneira que agora, se a cometerem com qualquer armada, porque acharão no porto muitos navios carregados de açúcar e algodão, e muita soma dele recolhido pelas terracenas que estão na praia dos mercadores, tanto das mercadorias como de muito dinheiro de contado, muitas peças de ouro e prata e muitas alfaias de casa.

C A P Í T U L O XV

Em que se declaram as grandes qualidades que tem a Bahia de Todos os Santos.

El-rei D. João III de Portugal, que está em glória, estava tão afeiçoado ao Estado do Brasil, especialmente à Bahia de Todos os Santos, que, se vivera mais alguns anos, edificaria nele um dos mais notáveis reinos do mundo, e engrandecera a cidade do Salvador de feição que se pudera contar entre as mais notáveis de seus reinos, para o que ela estava mui capaz, e agora o está ainda mais em poder e aparelho para isso, porque é senhora desta baía, que é a maior e mais formosa que se sabe pelo mundo, assim em grandeza como em fertilidade e riqueza. Porque esta baía é grande e de bons ares, mui delgados e sadios, de muito frescas e delgadas águas, e mui abastada de mantimentos naturais da terra, de muita caça, e muitos e mui saborosos pescados e frutas, a qual está arrumada pela maneira seguinte.

(continua...)

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