Por Eça de Queirós (1925)
– E necessário um cirurgião, para o caso de ser preciso, por exemplo, ligar uma artéria. Enfim, é sempre indispensável um cirurgião...
Alípio curvou-se, calado. Há, em certos silêncios humanos, em certo humano vergar de ombros, uma ironia feroz, que deve fazer corar o destino, envergonhado da sua tirania... Alípio Abranhos ficou só no escritório, prostrado sobre o canapé – tendo diante de si a visão nítida de um corpo retalhado a golpes de espada, que uma viúva pranteia, esguedelhada.
A voz do padre Augusto que, como costumava, dizia algum inocente gracejo à Joana, (bonita criada que eu ainda conheci) tirou-o deste legítimo torpor, e de repente, como um pássaro que subitamente atravessa uma sala aberta, uma ideia de um engenho subtil atravessou-lhe o espírito.
Abriu a porta, chamou o padre, e com uma gravidade que fez arregalar de terror os olhos do bom eclesiástico, murmurou:
– Padre Augusto, vou-lhe confiar um grande segredo... Um segredo tremendo, que há-de ficar consigo.
O padre, aterrado, balbuciou:
– É em confissão? E segredo de confissão?
– Não! – exclamou logo Alípio. – Pelo amor de Deus! Nem por sombras o considere segredo de confissão. Que tolice! Credo! Isso estragava tudo... Fique bem entendido que não é segredo de confissão... Mas é um segredo que lhe confio: bato-me amanhã em duelo!
– Caramba! – exclamou o respeitável sacerdote, caindo de chofre no canapé.
Então Alípio, sentando-se junto dele, contou-lhe a história do seu duelo. E terminou dizendo:
– Se eu lhe digo tudo isto é para que seja o amigo que amanhã, se houver desgraça, console a Virgininha. E agora adeus, que tenho papéis a pôr em ordem... Mas guarde o segredo, que pode a coisa chegar aos ouvidos da polícia e transtorna-se tudo.
O sacerdote queria objectar, pregar, parabolar – mas Alípio, suave e firme, empurrando-o pelos ombros:
– É uma coisa decidida. Adeus. E agora veja lá, padre Augusto, não o vá dizer... Que a polícia, se o sabe, impede a coisa... Adeus. E amanhã, às sete, na Cruz Quebrada. Não se esqueça – às sete – e guarde-me o segredo, amigo.
Padre Augusto foi ao cabide do corredor, agarrou o chapéu, e precipitou-se pela escada, como uma pedra que rola.
Ao outro dia, às sete da manhã – uma manhã clara, fria e seca – quando Alípio com as suas testemunhas chegavam ao sítio aprazado, o Regedor de Belém e seis cabos de polícia, desembocando com fúria de trás de um maciço de árvores, apoderaram-se dos sete cavalheiros (incluindo o respeitável Teles, cirurgião)!
Foram postos em liberdade às dez horas, de sorte que D. Virgínia soube por seu marido do perigo que ele correra, e da intervenção providencial, que lho salvara. O seu orgulho foi grande. Alípio tomou para ela as proporções de um d'Artagnan, de um Conde de Monte Cristo! E a sua ternura, os seus afagos, a sua admiração, estavam dando a Alípio momentos deliciosos, quando a Joana lhe veio dizer que os Srs. A e B, desejavam absolutamente falarlhe e esperavam na sala.
– Há-de ser para o almoço... Há sempre um almoço...
Não, não era para este fim honesto: era para lhe dizer – para que A lhe dissesse secamente, sem se sentar, com as mãos nos bolsos das calças, fazendo tilintar nervosamente um molho de chaves:
– Está provado – temos a prova evidente – que a polícia foi avisada por um amigo desta casa... Isto é uma brincadeira torpe. Nem as testemunhas do Peixoto, nem nós, somos pessoas com quem se brinque torpemente. O duelo que não pôde ter lugar hoje, há-de ter lugar amanhã, no Lumiar. Se a polícia aparecer de novo, o que não é natural, agora que ela está desprevenida, ficaremos cientes que o mesmo amigo desta casa a avisou, e nesse caso nós todos nos consideraremos ofendidos, e V. Exª terá de se bater por ordem de número, com o amigo Gorjão, o amigo Sequeira, o amigo B, este criado de V. Exª, e depois, com o Peixotinho! Cinco duelos em lugar de um!
– Mas eu dou a minha palavra de honra... Eu não tenho culpa... É um assassinato!.
– Temos a honra de desejar a V. Exª muito boas tardes. Aqui estaremos amanhã, às sete. E a mesma tipóia, o cocheiro é seguro... E o Pintado. Não se incomode V. Exª... Criado de V. Exª...
Alípio, só no escritório, teve um grito de revolta:
– Aí está o que é um homem de bem meter-se com espadachins!
Se ele tivesse posto este negócio nas mãos prudentes do Conselheiro Andrade ou do Fradinho, por exemplo, a solução decerto teria sido outra, toda honrosa, toda amigável; mas entregara-a a dois personagens sôfregos de publicidade, pedantes do ponto de honra – e ali estava agora, empurrado fatalmente para diante de uma espada nua!
Que se passou na alma deste grande homem, nessa noite de agonia? Mal sabiam os que passavam, à saída de S. Carlos, pelo Largo do Quintela, que ali, no segundo andar, por trás de uma janela iluminada, havia um Horto, uma hora do Jardim das Oliveiras.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.