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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem hercúleo, de bigode negro, muito escarlate, saiu bruscamente, e parando, segurando a porta aberta, gritou para dentro:

- E fique sabendo que havia de encontrar homem!

Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.

O sujeito hercúleo atirou a porta, furioso; atravessou o café resfolegando, apoplético; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e calça branca, seguia-o, com um ar gingado.

- O que eu devia fazer - exclamava o agigantado, brandindo o punho - era quebrar a cara àquele pulha!

O rapaz chupado dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se:

- Questões não servem para nada, Sô Correia!

- É que sou muito prudente - berrou o hercúleo. - É que me lembro tenho mulher e filhos! Se nãobebia-lhe o sangue!

E saindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.

O criado muito pálido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que erguera a cabeça, teve um sorriso de tédio, e retomou tristemente o jornal.

Sebastião, então, disse refletindo:

- Não te parece que seria bom avisá-la?

Julião encolheu os ombros, soltou uma baforada de fumo.

- Dize alguma coisa! - implorou Sebastião. - Tu não ias falar-lhe, hem?

- Eu? - exclamou Julião com um aspecto que repelia a idéia. - Eu! Estás doido!

- Mas que te parece, enfim?

E a voz de Sebastião tinha quase uma aflição.

Julião hesitou:

- Vai, se queres. Diz-lhe que se tem reparado... Enfim, eu não sei, meu amigo!

E pôs-se a chupar o seu cigarro.

Aquele mutismo afetou Sebastião. Disse com desconsolação:

- Homem, vim-te pedir um conselho...

- Mas que diabo queres tu? - E a voz de Julião irritava-se. - A culpa é dela. É dela! - insistiu,vendo o olhar de Sebastião. - É uma mulher de vinte e cinco anos, casada há quatro, deve saber que se não recebe todos os dias um peralvilho, numa rua pequena, com a vizinhança a postos! Se o faz, é porque lhe agrada.

- Ó Julião! - disse muito severamente Sebastião.

E dominando-se, com a voz comovida:

- Não tens razão, não tens razão!

Calou-se muito magoado.

Julião levantou-se.

- Amigo Sebastião, eu digo o que penso; tu fazes o que entendes.

Chamou o criado.

- Deixa - disse Sebastião precipitadamente, pagando.

Iam sair. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel enxovalhado.

Sebastião, surpreendido, leu alto, maquinalmente:

- "O abaixo-assinado, antigo empregado da nação, reduzido a miséria..."

- Fui íntimo amigo do nobre Duque de Saldanha! - gemeu chorosamente, com uma rouquidão, osujeito calvo.

Sebastião corou, cumprimentou, meteu-lhe na mão duas placas de cinco tostões, discretamente.

O sujeito dobrou profundamente o espinhaço e declamou com uma voz cava:

- Mil agradecimentos a Vossa Excelência, senhor conde!

CAPÍTULO V

A manhã estava abrasadora. Um pouco depois do meio-dia, Joana, estirada numa velha cadeira de vime da Ilha da Madeira que havia na cozinha, dormitava a sesta. Como madrugava muito, àquela hora da calma vinha-lhe sempre uma quebreira.

As janelas estavam cerradas ao sol faiscante; as panelas no lume faziam um romrom dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia amodorrada no amolecimento do calor tórrido, quando Juliana entrou como uma rajada, atirou para o chão furiosa, uma braçada de roupa suja, e gritou:

- Raios me partam se não há um escândalo nesta casa que vai tudo raso!

Joana deu um salto estremunhada.

- Quem quer as coisas em ordem olha por elas! - berrava a outra com os olhos injetados. - Nãoé estar todo o dia na sala a palrar com as visitas!

A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, já assustada.

- Que foi, Sra. Juliana, que foi?

- Está com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! Sangrias! Tem peguilhado por tudo! Nãoestou para a aturar, não estou!

E batia o pé com frenesi.

- Mas que foi? Que foi?

- Diz que os colarinhos tinham pouca goma; pôs-se a despropositar! Estou a aturar! Estou farta! Estou até aqui! - bradava, puxando a pele engelhada da garganta. - Pois que me não faça sair de mim! Que me vou, e pespego-lhe na cara por quê! Desde que aqui temos homem e poucavergonha, boas noites!... Quem quiser que se meta em alhadas...

- Ó Sra. Juliana, pelo amor de Deus! Jesus! - E a Joana apertava a cabeça nas mãos. - Ai, se asenhora ouve!

- Que ouça, digo-lho na cara! Estou farta! Estou farta!

Mas, de repente, fez-se branca como a cal; caiu sobre a cadeira de vime com as duas mãos contra o coração, os olhos em alvo.

- Sra. Juliana! - gritou Joana. - Sra. Juliana! Fale! Borrifou-a de água; sacudiu-a ansiosamente.

(continua...)

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