Por Eça de Queirós (1870)
— Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui nes ta sombra encontraralguém?... — E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a corte, que lhe dê uma serenata, quesuba por uma escada de corda, que a seduza neste jardim... Enquanto eu falava, davam horas na Igreja de S. João, e Cár men mostrava uma agitação impaciente. A todo o momento olha va para a porta do jardim, torcendofreneticamente uma luva descalçada.
Eu compreendi que ela esperava alguém. Alguém, isto é, el querido, el precioso, el saleroso, el nin~o de toda a legítima andalu za. Afastei-me discretamente, como umconfidente, e no momen to que pisava a rua areada que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura plangente.«É ele», pensei eu. «É o nin~o. Pobre Cármen! Bebe vinagre, apanha os orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não pode ser superior a vir receber debaixo daslaranjeiras algum cabeleireiro francês com voz de tenor, ou algum tenor maltês com bi godes de cabeleireiro.»
Subi ao meu quarto, mas não tinha sono; a noite era suave e lânguida, mordia-me umaáspera curiosidade, e com a astúcia de um ladrão napolitano, desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi Cármen. estava só! Extrema surpresa!- E el querido? — perguntei-lhe eu rindo.Ela voltou-se em sobressalto e perguntou-me com a voz agi tada:
— Qual querido? — O que entrou agora? Não entrou ninguém.- Eu vi.
— Conheceu? — Não, onde está?
— Abriu as asas, voou! — disse ela rindo-se e afastando-se em direcção aos seus quartos.
— Diabos! — pensei eu. — É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os, parte-osaos bocadinhos e enterra-os na areia!
No entanto, tinha a curiosidade excitada. Alguém tinha entrado misteriosamente, com uma chave falsa decerto, porque só o conde e eu tínhamos a chave daquela porta do jardim.Mas onde es tava esse alguém? Teria entrado, e saído logo? Nesse caso não era uma entrevista de amor! Mas se não era um segredo de coração, para que era o mistério, a horaescura, o silêncio, a chave falsa?
Alguém teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbus to por arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto.Deitei-me preocupado com aquela aventura. No outro dia, ao almoço, um criado em voz alta declarou que se tinha achado no jar dim um pequeno punhal e que o hóspede a q uemele pertencesse o reclamasse em baixo, no office. Era um punhal de forma curva como se usano Indostão. Tinha sido encontrado numa moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido, mas voluntariamente arremessado. Ninguém reclamou o punhal.Tudo isto me causava uma singular curiosidade.
— Diabo! — dizia eu comigo. — Estamos em terra italiana, apesar da polícia inglesa, e éprovável que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda por aí haja alguma água tofana. Sejamos prudentes.
Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado à minha secre tária, escrevia paraPortugal, quando senti no corredor passos rá pidos, e a porta abriu-se violentamente.
Abafei um grito de tenor. De pé, à entrada do quarto, lívida, com os cabelos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a condessa.- Que foi? — bradei.
Ela tinha caído num sofá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os dentes trémulos.Eu borrifava-a de água, tomava-lhe as mãos, falava-lhe bai xo, e perguntava-lhe, aterrado, dandolhe os nomes mais doces para a serenar:
— Que foi, minha querida, que foi?Via-lhe os vestidos cheios de sangue.
— Feriram-na?Ela fez um gesto negativo. — Então? Então? — disse eu. A pobre senhora queria falar, erguia-se, sufocava, ansiava, parecia numa agonia.De repente, atirou-se aos meus braços e desatou a chorar.
— Fale, diga... — insistia eu.- Mataram-no — disse ela. — Mataram quem? — Rytmel!- Como? Onde?
No jardim... Vá!
XI
Corri ao jardim. Os meus passos, instintivamente, apressa ram-me para o lado da pequena porta verde aberta no muro.Estava aberta. Ao lado, junto de uma moita de baunilhas, es tendido no chão, levemente apoiado no cotovelo, vi Rytmel.
— Então? — gritei-lhe, abaixando-me ansiosamente para ele.
— Só ferido. — Como? Onde? Não respondeu, os olhos cerraram-se-lhe e desfaleceu sobre a relva.Corri ao tanque, trouxe um lenço ensopado em água, molhei- lhe as faces e as mãos: a ferida era na parte superior do peito, do lado direito, por baixo da clavícula. Vi que não era mortal.Eu estava numa extrema hesitação. Para onde levar aquele homem?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.